Herdar Apocalipses: Representações da colonização e do Antropoceno na Literatura Brasileira Contemporânea
DOI:
https://doi.org/10.20873.26elit2Resumo
O fim do mundo é um tema recorrente no imaginário ocidental, mas frequentemente o que termina não é a humanidade nem o planeta, e sim o modo de existência baseado na acumulação e exploração ilimitadas dos ecossistemas. Esse modelo de desenvolvimento tem levado à real ameaça de um apocalipse causado pelas mudanças climáticas e pela crise ecológica. Notavelmente, muitos outros mundos já vivenciaram seu fim ou vivem em um contexto pós-apocalíptico, como evidenciado nas histórias de diversos povos indígenas. Este artigo examina como três romances brasileiros representam o fim do mundo, combinando sátira e pessimismo para retratar cenários distópicos: Não verás país nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão, que critica a redemocratização do Brasil após a ditadura civil-militar, em meio a um desastre ecológico; A morte e o meteoro (2019), de Joca Reiners Terron, que aborda a extinção de um povo indígena devido à devastação amazônica, como metáfora da exploração colonial; e A extinção das abelhas (2021), de Natalia Borges Polesso, uma narrativa fragmentada que reflete sobre o desmoronamento do mundo e a fuga por meio da solidariedade. Em diálogo com pesquisadores como Danowski, Ferdinand e Viveiros de Castro, além da escritora indígena Eliane Potiguara, este artigo defende a necessidade de ampliar a concepção de único mundo e único fim, de forma a ultrapassar essa construção colonial tão pouco produtiva no contexto do Antropoceno.
Referências
BENATTI, André Rezende. Do segundo ao terceiro céu: sobre as opressões em a A morte e o meteoro, de Joca Reiners Terron. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo. Vol. 19, N. 1, p. 9-25, jan.-abr. 2023.
BERKELEY EARTH. August 2025 Temperature Update. Berkeley Earth. 17 set. 2025a. Disponível em: https://berkeleyearth.org/august-2025-temperature-update/. Acessado em: set. 2025.
BERKELEY EARTH. Global Temperature Report for 2024. Berkeley Earth. 10 jan. 2025b. Disponível em: https://berkeleyearth.org/global-temperature-report-for-2024/. Acessado em: set. 2025.
BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum. 28.ed. São Paulo: Global, 2019.
BRUM, Eliane. Banzeiro òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
COLEBROOK, Claire. Slavery and the Trumpocene: It’s Not the End of the World. Oxford Literary Review. Vol. 41, N. 1, p. 40-50, 2019.
CUNHA, Euclides. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013.
DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. 2.ed. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2017.
DIAS DE BRITO, Angela Maria. Lógica colonialista e necropolítica: A morte e o meteoro de Joca Terron. Revista Abusões. Vol. 22, N. 22, p. 40-63, maio 2023.
FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. Tradução: Letícia Mei. São Paulo: Ubu, 2022.
GALERA, Daniel. Bugônia. In: GALERA, Daniel. O deus das avencas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
GINWAY, Elizabeth. Ficção científica brasileira. Tradução: Roberto de Sousa Causo. São Paulo: Devir, 2005.
KOLBERT, Elizabeth. A Sexta Extinção: Uma história não natural. Tradução: Mauro Pinheiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
LATOUR, Bruno. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. Tradução: Maryalua Meyer. São Paulo/Rio de Janeiro: Ubu/Ateliê de Humanidades, 2020.
LOVELOCK, James. Gaia: alerta final. Tradução: Jesus de Paula Assis, Vera de Paula Assis. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.
LUNDE, Maja. Bienes historie: roman. Oslo: Aschehoug, 2015.
MOORE, Jason W. Introdução. In: MOORE, Jason W. (org.). Antropoceno ou Capitaloceno? Natureza, história e a crise do capitalismo. Tradução: Antônio Xerxenesky, Fernando Silva e Silva. São Paulo: Elefante, 2022.
MORTON, Timothy. Dark ecology: for a logic of future coexistence. New York: Columbia University Press, 2016.
MORTON, Timothy. Ser ecológico. Tradução: Maíra Mendes Galvão. São Paulo: Quina Editora, 2023.
MOYLAN, Tom. Distopia: fragmentos de um céu límpido. Tradução: Felipe Benício, Pedro Fortunato, Thayrone Ibsen. Maceió: Edufal, 2016.
NEVES, Júlia Braga. Uma distopia do presente? O futuro em A extinção das abelhas, de Natália Borges Polesso. Revista Abusões. Vol. 22, N.22, p. 133-158, maio 2023.
POLESSO, Natalia. A extinção das abelhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. Rio de Janeiro: Grumin, 2018.
TERRON, Joca Reiners. A morte e o meteoro. São Paulo: Todavia, 2019.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Porto das Letras

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Os autores concordam com os termos da Declaração de Direito Autoral, que se aplicará a esta submissão caso seja publicada nesta revista (comentários ao editor podem ser incluídos a seguir).