Permanências e multitemporalidades em Não é um rio, de Selva Almada
DOI :
https://doi.org/10.20873.261012Résumé
Resumo: Este artigo analisa o romance Não é um rio, de Selva Almada, a partir de uma perspectiva que articula cotidiano, território e multitemporalidade. Parte-se da compreensão de que a narrativa desloca o campo de enunciação da literatura argentina contemporânea ao situar sua trama em territórios ribeirinhos historicamente marginalizados e ao fazer das práticas ordinárias, do silêncio e dos gestos mínimos lugares centrais de produção de sentido, dialogando com a ideia do estar de Kusch (2000) e articulada com o pensamento ch’ixi de Rivera Cusicanqui (2024). A análise organiza-se em dois eixos principais. No primeiro, examina-se o cotidiano como gesto crítico, compreendendo o estar como forma de existência situada que sustenta a vida não como projeto de superação, mas como permanência, em diálogo com o pensamento liminar e com a recusa das narrativas totalizantes da modernidade/colonialidade. No segundo eixo, investiga-se a organização temporal do romance a partir da justaposição de temporalidades heterogêneas — o tempo traumático, o tempo do cotidiano e um tempo ancestral vinculado ao território — entendidas não como recurso formal, mas como estrutura de experiência. Argumenta-se que, em Não é um rio, o passado não se apresenta como lembrança encerrada, mas como força que insiste no presente, produzindo um tempo espesso atravessado por retornos, permanências e irrupções. Dessa forma, o romance afirma uma poética da permanência e do território, propondo uma leitura crítica da experiência latino-americana a partir de suas margens, de seus silêncios e de suas temporalidades feridas.
Palavras-chave: Cotidiano; Multitemporalidade; Território; Literatura argentina contemporânea.
Références
Referências:
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SANTIAGO, Silviano. Uma Literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Um mundo ch’ixi é possível: ensaios de um presente em crise. São Paulo: Elefante, 2024.
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