Os Rios Que Atravessam a Cidade da Cultura: Um Ensaio Sobre Porto Nacional No Antropoceno
DOI:
https://doi.org/10.20873.26elit12Resumo
A emergência do Antropoceno impactou profundamente as relações entre a Sociedade e a Natureza, um processo agravado pelo apagamento dos ambientes e da biodiversidade. Os rios, em particular, têm enfrentado um destino muito sombrio, o que levanta importantes questões éticas sobre sustentabilidade da sociedade humana em um mundo empobrecido de riqueza material e espiritual. Neste contexto, este ensaio busca descrever e analisar a situação de Porto Nacional (TO) no Antropoceno, buscando elementos para compreender a transformação socioambiental vivida pela cidade. Localizada às margens do rio Tocantins, e cortada pelo ribeirão São João, a cidade se desenvolveu com o fluxo das águas, que trouxeram desenvolvimento, identidade e senso de pertencimento ao povo local. Tendo os rios como tecido ambiental, se tornou a Cidade da Cultura, guardiã da riqueza tocantinense e solo fértil para o florescimento de perspectivas diversas. A despeito dessa conjuntura, a cidade passou a testemunhar silenciosamente o apagamento de seus ambientes naturais, e sem reação, embarcou em um processo de desconstrução cultural. No atual momento, Porto Nacional teve seu epíteto atualizado para Cidade do Agro e Cultura, revelando que, para a sociedade, a cultura se tornou questão secundária. É notório o processo de estagnação dos rios e das almas, com efeitos perenes sobre a construção da identidade, caráter, memória, e vínculo emocional das pessoas. Porto Nacional caminha, no Antropoceno, para o destino comum às cidades brasileiras, caracterizadas pela degradação extrema do meio ambiente, apagamento das relações com a Natureza, e a pulverização de sua riqueza cultural.
Referências
AKAMA, A. Impacts of the hydroelectric power generation over the fish fauna of the
Tocantins river, Brazil: Marabá dam, the final blow. Oecologia Australis. Vol. 21, N. 3,
p. 222–231, 2017.
BALSAN, R. et al. (Org.) Roteiro Geo-Turístico em Porto Nacional: reflexões de
ensino, pesquisa e extensão. Palmas: EDUFT, 2020.
BRITO, E. P. Sobre os ribeirinhos tocantinenses: história e resistências. InterEspaço:
Revista de Geografia e Interdisciplinaridade. Vol. 14, N. 14, p. 33–48, out. 2018.
BRITO, E. P.; ALMEIDA, M. G. No itinerário dos expulsos pela UHE Estreito. Território
dos sujeitos ribeirinhos no rio Tocantins. Revista de Geografia (Recife). Vol. 34, N. 34,
p. 47–63, 2017.
DIAMOND, J. O mundo até ontem. Tradução Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro:
Editora Record, 2014.
DORST, J. Antes que a natureza morra. Tradução Rita Buongermino. São Paulo:
Editora Edgard Blucher, 1975.
FERREIRA, J. C. C. et al. Chave pictórica para a entomofauna aquática e semiaquática
do ribeirão São João, Porto Nacional, Tocantins. DESAFIOS - Revista Interdisciplinar
da Universidade Federal do Tocantins. Vol. 12, N. 1, p. 1–33, 30 abr. 2025.
http://dx.doi.org/10.20873/pibic_2024_21126
FEYERABEND, P. Against Method. 3rd Ed., London: Verso, 1993.
DUDGEON, D. et al. Freshwater biodiversity: Importance, threats, status and
conservation challenges. Biological Reviews. Vol. 81, N. 2, p. 163–182, 2006.
ELHACHAM, E. et al. Global human-made mass exceeds all living biomass. Nature.
Vol. 588, N. 7838, p. 442–444, 17 dez. 2020.
FONTOURA, F. L.; FERREIRA, A. L. B. P.; PELICICE, F. M. Degradação ambiental
no ribeirão São João, Porto Nacional (TO), bacia do rio Tocantins. DESAFIOS - Revista
Interdisciplinar da Universidade Federal do Tocantins. Vol. 11, N. 3, p. 1-13, 2024.
https://doi.org/10.20873.2024_v3_9.
GRANTHAM, H. S. et al. Anthropogenic modification of forests means only 40% of
remaining forests have high ecosystem integrity. Nature Communications. Vol. 11, N.
1, p. 1-10, 1 dez. 2020.
GRILL, G. et al. Mapping the world’s free-flowing rivers. Nature. Vol. 569, N. 7755, p.
215–221, 2019.
HALPERN, B. S. et al. A global map of human impact on marine ecosystems. Science.
Vol. 319, N. 5865, p. 948–952, 15 fev. 2008.
HUMPHRIES, P. et al. The river wave concept: Integrating river ecosystem models.
BioScience. Vol. 64, N. 10, p. 870–882, 2014.
IBGE 2025. Cidades e Estados. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Acesso em 19/09/2025. https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/to/porto-
nacional.html
JÁCOMO, W.; BALSAN, R. Os discursos e o turismo: um diálogo no município de
Porto Nacional – TO. Palmas: EDUFT, 2017.
LATRUBESSE, E. M. et al. Fostering water resource governance and conservation in the
Brazilian Cerrado biome. Conservation Science and Practice. Vol. 1, N. 9, e77, set.
2019.
LEITE, E. F.; CARVALHO, E. M. Mapeamento do uso e cobertura da terra na bacia
hidrográfica do ribeirão São João, Porto Nacional, Tocantins. Geoambiente on-line. Vol.
20, p. 97–110, 2013.
MapBiomas. Coleção 10 da série anual de Mapas de Cobertura e Uso da Terra do
Brasil. 2025. Acessado em 01/09/2025 através do link: https://brasil.mapbiomas.org/
McRAE, L.; DEINET, S.; FREEMAN, R. The diversity-weighted living planet index:
Controlling for taxonomic bias in a global biodiversity indicator. PLoS ONE. Vol. 12,
N. 1, e0169156, jan. 2017.
MESSIAS, N. C. Rio Tocantins: lugar de memória para os portuenses. In: BALSAN, R.;
RIBEIRO, L. e BRESSANIN, C. (Orgs) Roteiro Geo-Turístico em Porto Nacional:
reflexões de ensino, pesquisa e extensão. Palmas: EDUFT, p. 60-68, 2020.
OLIVEIRA, P. T. S. et al. Trends in water balance components across the Brazilian
Cerrado. Water Resources Research. Vol. 50, p. 7100–7114, 2014.
PELICICE, F. M. et al. Large-scale degradation of the Tocantins-Araguaia River Basin.
Environmental Management. Vol. 68, p. 445–452, 2021.
PELICICE, F. M. et al. Tocantins and Araguaia. In: GRAÇA, M. A. S.; CALLISTO, M.;
TEIXEIRA DE MELO, F.; RODRÍGUEZ-OLARTE, D. (Eds) Rivers of South
America. Amsterdam: Elsevier. p. 407-431, 2025.
PETSCH, D. K. et al. Ecosystem services provided by river-floodplain ecosystems.
Hydrobiologia. Vol. 850, N. 12–13, p. 2563–2584, jul. 2023.
POFF, N. L. et al. The natural flow regime. Bioscience. Vol. 47, N. 11, p. 769–784, 1997.
ROCHA, L. M.; OLIVEIRA, M. F. Imperatriz [MA] e Porto Nacional [TO]: duas cidades,
um rio e muitas histórias. Labor & Engenho. Vol. 9, N. 2, p. 70-80, abr./jun. 2015.
ROSA, J. I. L.; OLIVEIRA, M. C. A.; BALSAN, R. (Orgs) Porto Nacional, patrimônio
do Brasil: histórias e memórias. Palmas: EDUFT, 2015.
SANTOS, M. A. A.; PELICICE, F. M. Sentinels of environmental change: shifts in fish
diversity through the lens of artisanal fishers. Neotropical Ichthyology. Vol. 23, N. 1,
e240049, 2025.
SILVA, R. P.; GRÁCIO, H. R. O modelo de desenvolvimento do Tocantins e o povo
Akwẽ-Xerente: impactos socioambientais e desafios da interculturalidade. PRACS:
Revista Eletrônica de Humanidades do Curso de Ciências Sociais da UNIFAP. Vol. 13,
N. 2, p. 131–144, 2020.
STEFFEN, W. et al. Planetary boundaries: Guiding human development on a changing
planet. Science. Vol. 347, N. 6223, e1259855, 2015.
SWANSON, A. C.; BOHLMAN, S. Cumulative impacts of land cover change and dams
on the land–water interface of the Tocantins River. Frontiers in Environmental Science.
Vol. 9, e662904, April 2021.
TEIXEIRA, R. A. S. et al. Impactos ambientais no ribeirão São João: memória dos
ribeirinhos do município de Porto Nacional-Tocantins. Revista Geografia em Atos. Vol.
8, N. 3, p. 81–92, dez. 2018.
THOREAU, H. D. A desobediência civil e outros escritos. Tradução Alex Marins. São
Paulo: Editora Martin Claret, 2002.
VITOUSEK, P. M. et al. Human domination of Earth’s ecosystems. Science. Vol. 277,
N. 5325, p. 494–499, jul. 1997.
VRETTOS, T. Alexandria: a cidade do pensamento ocidental. São Paulo: Odysseus,
2005.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Porto das Letras

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Os autores concordam com os termos da Declaração de Direito Autoral, que se aplicará a esta submissão caso seja publicada nesta revista (comentários ao editor podem ser incluídos a seguir).