“Playboy bom é chinês, australiano"
o conflito linguístico como denúncia social em Da Ponte Pra Cá
DOI:
https://doi.org/10.20873.261009Abstract
Este artigo analisa a canção Da Ponte Pra Cá, dos Racionais MC’s, tomando-a como acontecimento discursivo e como prática estética que disputa regimes de legitimidade linguística e cultural no Brasil. Amparada por um referencial que articula sociolinguística, análise do discurso, estudos culturais e abordagens decoloniais, a pesquisa busca compreender como a letra constrói um contra-discurso por meio da variação linguística, da performatividade vocal, de intertextualidades e de uma narrativa territorializada que reposiciona a periferia como centro de enunciação. Metodologicamente, realiza-se uma análise documental da letra, observando recursos de endereçamento comunitário (como a cena radiofônica), nomeação de territórios e procedimentos retórico-discursivos que configuram fronteiras simbólicas “da ponte pra cá”. Os resultados indicam que a canção opera simultaneamente como denúncia e como política de existência: confronta a violência simbólica (Bourdieu, 1998), evidencia o caráter seletivo da norma (Faraco, 2008) e sustenta processos identitários em disputa (Hall, 2006), ao mesmo tempo em que, em chave de “entre-lugar”, reorganiza memórias e narrativas legítimas (Santiago, 2000). Conclui-se que Da Ponte Pra Cá ultrapassa o estatuto de manifestação artística ao funcionar como intervenção simbólica que legitima a fala periférica, questiona hierarquias sociais e produz outras possibilidades de reconhecimento.
Literaturhinweise
ANJOS, José Carlos dos. Bourdieu e Foucault: derivas de um espaço epistêmico. Anos 90, Porto Alegre, v. 11, n. 19/20, p. 139–165, jan./dez. 2004.
ARRUDA, Daniel Péricles. O que o rap tem a dizer sobre o extermínio da juventude negra, pobre e periférica? Mosaico, v. 13, n. 20, p. 548–560, 2021. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/8102828.pdf. Acesso em: 20 jan. 2026.
BALDUÍNO, Amanda Macedo. Variação linguística: uma proposta didática a partir de Sobrevivendo no inferno de Racionais MC’s. Entretextos, Londrina, v. 23, n. 3 (especial), p. 192–214, 2023. DOI: https://doi.org/10.5433/1519-5392.2023v23n3p192-214. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/378064269. Acesso em: 7 ago. 2025.
BAUMAN, Richard. Verbal art as performance. Rowley, MA: Newbury House, 1977.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
CERRUTI, Marta Quaglia. Sobrevivendo no inferno: narrar a vida para fazer algo. Estilos da Clínica, São Paulo, v. 25, n. 1, p. 35–47, jan./abr. 2020. DOI: 10.11606/issn.1981-1624.v25i1p35-47. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1415-71282020000100004&script=sci_arttext. Acesso em: 20 jan. 2026.
FARACO, Carlos Alberto. Norma culta brasileira: desatando alguns nós. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
FRITH, Simon. Performing rites: on the value of popular music. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1996.
GALVES, Charlotte; NAMIUTI, Cristiane; SOUSA, Maria Clara Paixão de. Novas perspectivas para antigas questões: revisitando a periodização da língua portuguesa. In: ENDRUSCHAT, Annette; KEMMLER, Rolf; SCHÄFER-PRIEß, Barbara (Org.). Grammatische Strukturen des europäischen Portugiesisch. Tübingen: Gunter Narr Verlag, 2006. p. 45–74. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/237528838. Acesso em: 7 ago. 2025.
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
GROS, Frédéric. Desobedecer. Tradução de Célia Euvaldo. São Paulo: Ubu Editora, 2019. (Coleção Exit).
GUTIERREZ, Debora Priscila Arevalo; CEI, Vitor. Ética e estética da poesia marginal. Literatura e Autoritarismo, Santa Maria, n. 32, p. 41–54, jul./dez. 2018. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/333740554_Etica_e_estetica_da_poesia_marginal. Acesso em: 7 ago. 2025.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
HINKEL, Jaison; MAHEIRIE, Kátia. Rap-rimas afetivas da periferia: reflexões na perspectiva sócio-histórica. Psicologia & Sociedade, v. 19, n. spe2, p. 90–99, 2007. DOI: 10.1590/S0102-71822007000500024. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/3093/309326391023.pdf. Acesso em: 20 jan. 2026.
KEHL, Maria Rita. Radicais, raciais, racionais: a grande fratria do rap na periferia de São Paulo. São Paulo em Perspectiva, v. 13, n. 3, 1999. DOI: 10.1590/S0102-88391999000300013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/spp/a/7DjwY79M59dvqDbxssRGvVR/?format=pdf. Acesso em: 20 jan. 2026.
LACERDA, Maria Felicidade Penha. O uso das metáforas em “Negro drama”, de Racionais MC’s: estratégia para a construção de uma identidade positiva para os negros brasileiros moradores da periferia. In: NEVES, Lúcia; FERREIRA, Marilda Aparecida Bezerra (Org.). Rap: vozes da periferia – literatura, cultura e política. Araraquara: Cultura Acadêmica, 2021. p. 175–190. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/223820. Acesso em: 7 ago. 2025.
MELLO, Carla Cristiane; PINTO, Cecilia Augusta Vieira. A linguagem do RAP como resistência à(s) norma(s). Revista Porto das Letras, Palmas, v. 6, n. 1, p. 93–112, 2020. Disponível em: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/portodasletras/article/view/8348/16643. Acesso em: 7 ago. 2025.
MESQUITA, Margareth Amoroso de. Racionais MCs: intrusos nos quintais das elites brasileiras. 2004. Disponível em: https://editoraessentia.iff.edu.br/index.php/enletrarte/article/download/1693/876/4065. Acesso em: 20 jan. 2026.
MIGNOLO, Walter D. Local histories/global designs: coloniality, subaltern knowledges, and border thinking. Princeton: Princeton University Press, 2000.
MIGNOLO, Walter. Desafios decoloniais hoje. Revista Epistemologias do Sul, Foz do Iguaçu, v.1, n.1, p. 12-32, 2017. Disponível em: https://revistas.unila.edu.br/epistemologiasdosul/article/view/772. Acesso em: 1 jan. 2026.
MOYSÉS, Mauricio. Produto Bruto: economia urbana e RAP no distrito do Grajaú no extremo sul de São Paulo. RUA, Campinas, v. 30, n. 2, p. 475–495, nov. 2024. DOI: 10.20396/rua.v30i2.8678506. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rua/article/download/8678506/35273/184075. Acesso em: 20 jan. 2026.
NALLI, João Marcos Camargo. Violência como linguagem: estudo sobre a relação entre educação e as possibilidades de compreensão do conceito. Ensino de Sociologia em Debate, Londrina, v. 2, n. 11, 2021. Disponível em: https://www.uel.br/revistas/lenpes-pibid/pages/arquivos/11%20Edicao%20V.2-2021/08%20ARTIGO_JOAO%20NALLI.pdf. Acesso em: 7 ago. 2025.
OLIVEIRA, Acauam Silvério de. O modelo semiótico de Luiz Tatit e suas implicações na análise da canção popular no Brasil: algumas considerações iniciais. Linguagem: Estudos e Pesquisas, Goiânia, v. 16, n. 2, 2015. Disponível em: https://periodicos.ufcat.edu.br/index.php/lep/article/view/33541. Acesso em: 20 jan. 2026.
PALERMO, Zulma. Desobediencia epistémica y opción decolonial. Cadernos de Estudos Culturais, Campo Grande, MS, v. 5, n. 9, p. 237-254, jan./jun. 2013. Disponível em: https://periodicos.ufms.br/index.php/cadec/article/view/3517/2796. Acesso em: 7 ago. 2025.
PINTO, Renata de Almeida Bicalho; PAULA, Ana Paula Paes de. Violência simbólica e subjetividade: uma leitura a partir da teoria crítica adorniana. Subjetividades, v. 22, e7884, 2022. DOI: https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v22e2.e7884. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/361347958_Violencia_Simbolica_e_Subjetividade_Uma_Leitura_a_partir_da_Teoria_Critica_Adorniana. Acesso em: 7 ago. 2025.
QUEIROZ, Marcos; CAVALCANTE, Jordhanna. Rap como teoria social: Racionais MC’s, criminologia e crítica radical. Boletim IBCCRIM, v. 29, n. 346, p. 11–13, set. 2021. Disponível em: https://publicacoes.ibccrim.org.br/index.php/boletim_1993/article/download/1358/689/8217. Acesso em: 20 jan. 2026.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
RACIONAIS MC’S. Da ponte pra cá. In: RACIONAIS MC’S. Nada como um dia após o outro dia [CD]. São Paulo: Cosa Nostra, 2002. Disponível em: https://www.letras.mus.br/racionais-mcs/64144/. Acesso em: 7 ago. 2025.
SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
SEGRETO, Marcelo. A linguagem cancional do rap. 2015. Dissertação (Mestrado em Semiótica e Linguística Geral) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-16062015-131826/publico/2015_MarceloSegreto_VCorr.pdf. Acesso em: 7 ago. 2025.
SILVA, Lara Ferreira da; OLIVEIRA, Luizir de. O papel da violência simbólica na sociedade por Pierre Bourdieu. Revista FSA, Teresina, v. 14, n. 3, art. 9, p. 160–174, maio/jun. 2017.
SILVA, Mauricio. A retórica da dominação: considerações sobre gramática e poder. Interdisciplinar, São Cristóvão, v. 27, p. 141–157, jan./jun. 2017.
SOUSA, Raquel Rocha de Queiroz e; BRUGGER, Andrey da Silva. A opressão simbólica e a resposta do oprimido. Revista Ratio Juris, v. 13, n. 26, p. 179–192, jul. 2018. DOI: 10.24142/raju.v13n26a8. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/6745601.pdf. Acesso em: 8 ago. 2025.
SOUZA, João Paulo Costa de. A canção como constelação de gêneros: música como linguagem em perspectiva discursiva. Travessias, São Cristóvão, 2018. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/Travessias/article/view/10250. Acesso em: 20 jan. 2026.
TATIT, Luiz. O cancionista: composição de canções no Brasil. São Paulo: EDUSP, 1996.
TATIT, Luiz. O cancionista: composição de canções no Brasil. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2002.
VIDAL, Gabriela Pereira et al. “Somos reis mano”: estudo de representações sociais da sociedade no rap brasileiro. Revista Psicologia Política, v. 25, e25350, 2025. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/pdf/rpp/v25/1519-549X-rpp-25-e25350.pdf. Acesso em: 20 jan. 2026.
WALSH, Catherine. Interculturalidad, Estado, sociedad: luchas (de)coloniales de nuestra época. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar; Abya-Yala, 2009.
WISNIK, José Miguel. O som e o sentido: uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
ZUMTHOR, Paul. Performance, réception, lecture. Longueuil: Le Préambule, 1990.
Downloads
Veröffentlicht
Zitationsvorschlag
Ausgabe
Rubrik
Lizenz
Copyright (c) 2026 Porto das Letras

Dieses Werk steht unter der Lizenz Creative Commons Namensnennung 4.0 International.
Os autores concordam com os termos da Declaração de Direito Autoral, que se aplicará a esta submissão caso seja publicada nesta revista (comentários ao editor podem ser incluídos a seguir).