Mia Couto: o futuro do passado, em Terra Sonâmbula

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DOI:

https://doi.org/10.20873.25411

Resumo

Resumo: o que visámos, na nossa leitura do romance de Mia Couto, foi trazer à luz a lógica derrideana do suplemento, não apenas nos conceitos de leitura e de (re)escrita que aí emergem, mas também na noção freudiana de Nachträglichkeit, que implica uma diferente conceção do tempo: a de um retroativo a posteriori, pelo qual o passado se ressignifica. Ligámo-los, assim, à construção temporal da subjetividade plural e multiestratificada, própria a várias  personagens do romance, na sua luta pela sobrevivência. Diferentes textos de Jacques Derrida nos ajudaram a isso: «Freud et la scène de l’écriture», «Dialangues», «La différance», «Signature événement con-texte», «Ce dangereux supplément...» ou «Envois» – sobre a memória do sujeito e a adestinação da escrita; e ainda de Freud: «A criação literária e o sonho acordado», as cartas a W. Fliess ou L’inter-prétation du rêve, sobre as questões da fantasia, do sonho ou da elaboração secundária.

Biografia do Autor

José Paulo Pereira, Professor

Nascido na Ilha de Moçambique, em 1955, e a viver em Portugal, onde se licenciou pela Universidade de Lisboa, em 1987, cursou Mestrado de Literatura Comparada em 1996 e se doutorou, pela Universidade do Algarve, em 2004. Atualmente, já aposentado, mantém-se como investigador, colaborando com o Centro de Investigação em Artes e Comunicação - CIAC da Universidade do Algarve. Publicou livros como: «Uma Carografia Transtornada - Picasso e Carlos de Oliveira», pela Angelus Novus e «Mia Couto - o lume das sombras: dez ensaios sobre obras de ficção».

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Publicado

2026-03-14

Como Citar

Pereira, J. P. (2026). Mia Couto: o futuro do passado, em Terra Sonâmbula. Porto Das Letras, 11(4), 1–31. https://doi.org/10.20873.25411