EDITORIAL

Este número da Revista Controle Social e Desenvolvimento Territorial (CSDT) é um convite dos seus editores à Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial – RETE (Brasil) para elaboração do dossiê temático Direcionalidades emergentes das políticas de desenvolvimento territorial frente aos impactos da pandemia na América Latina e resultou na ampliação dessa parceria com a participação da Red en Gestión Territorial del Desarrollo (México) no intuito de promover o necessário debate reflexivo sobre os impactos da pandemia Covid-19 nos territórios latino-americanos.

As orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre as medidas sanitárias e sociais para contenção do contágio, fechamento das fronteiras em diversos países, necessário distanciamento social e essencial investimento público no controle epidemiológico da pandemia evidenciou as fragilidades e aprofundou as desigualdades regionais com impactos diversos em seus territórios, independentemente do grau de desenvolvimento dos países. Dados recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) destacam a América Latina como a região mais afetada economicamente com perda de 47 milhões de postos de trabalho, expondo suas populações a situações diversas de vulnerabilidades.

Ao mesmo tempo, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) destaca um retrocesso em âmbito global do Índice de Desenvolvimento Humano com prognóstico de que 40 a 60 milhões de pessoas devam entrar ou voltar a viver na extrema pobreza, enquanto dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) preveem 265 milhões de pessoas passando fome no mundo, só em 2020, devido a insegurança alimentar.

Embora estes cenários revelem um conjunto de consequências derivadas de processos ainda em curso, este dossiê instigou pesquisadores a avançar em suas reflexões interdisciplinares sobre os efeitos sociais, econômicos e ambientais da Covid-19, bem como sobre os mecanismos de resistências nos territórios da América Latina durante esse momento de pandemia.

Além do caráter científico e do ineditismo, o ponto de partida para a seleção dos trabalhos foi a abordagem interdisciplinar sobre os distintos processos e efeitos da territorialização da pandemia covid-19 na América Latina. Nesta direção, os artigos desse dossiê direcionam o olhar para problemas socioterritoriais específicos em escalas diversas (locais, regionais, sub-regionais, nacionais, rurais, urbanas, bairros, comunidades), dentre outros recortes territoriais, inclusive territorialidades, que poderão não ter vínculo com o espaço. Alguns trabalhos dialogam com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, sobretudo com os objetivos que tratam da erradicação da pobreza, segurança alimentar e agricultura (ODS 1 e 2), vida saudável e redução das desigualdades (ODS 10), padrões sustentáveis de produção e de consumo (ODS 12), cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11). Em termos transversais, por focar em reflexões sobre os efeitos e estratégias de superação dos impactos de uma crise sanitária, é possível também que os trabalhos aqui organizados dialoguem com os ODS 15 e 16 que versam sobre a proteção da vida e da justiça social.

O primeiro artigo México. Economia, cidades e pandemia. Leituras da geografia apresenta um olhar desde uma perspectiva geográfica sobre os efeitos da pandemia Covid-19 no México cuja incidência se dá em diferentes escalas e revela efeitos perversos das dimensões espaciais das desigualdades: sua incidência é mais elevada em alguns lugares, enquanto em outros parecem estar mais protegidos.

A pandemia de Covid-19 e a pobreza nas zonas rurais do México trazem simulações baseadas na população pobre, oficialmente registrada em zonas rurais do México, com o objetivo de verificar o impacto da pobreza nesses espaços. Nessa perspectiva, faz um alerta sobre a possibilidade de  haver mais de um milhão de pessoas pobres nessas áreas em 2020 em decorrência pandemia com impactos significativos no nível de renda e nas condições de segurança alimentar dessa população.

A partir de um estudo de caso no nordeste brasileiro, o terceiro artigo Governança Territorial e Ação Coletiva para o Desenvolvimento Rural do Território Açu-Mossoró (RN) destaca a importância da gestão social e governança territorial para consolidar estratégias de mitigação dos impactos da pandemia, sobretudo, no que se refere à capacidade de ações coletivas dos segmentos da agricultura familiar frente aos desafios relacionados à produção, abastecimento e comercialização de alimentos num contexto de crise.

Já no contexto mexicano Redirecionar o enfoque territorial para o desenvolvimento rural: recuperar a centralidade da questão alimentar buscou evidenciar, a partir de um estudo de caso em Istmo de Tehuantepec, em Oaxaca, a necessidade de promover processos de gestão territorial de base comunitária para o desenvolvimento regional a partir da perspectiva da soberania alimentar. Para tanto, é recapitulado o significado social e ambiental da crise de Covid-19 nos espaços rurais latino-americanos, anteriormente enfraquecidos por dinâmicas extrativistas e processos de desagrarização.

Também sob o enfoque da segurança e soberania alimentar, o artigo Estratégias de abastecimento de alimentos de agricultores na Mixteca de Oaxaca, no México, antes e durante a pandemia de Covid-19 faz uma análise das estratégias de abastecimento alimentar das famílias camponesas da Mixteca de Oaxaca, antes e durante a pandemia de Covid-19, realçando as distintas adaptações ocorridas desde o perfil do consumo até a adoção de cadeias curtas de comercialização de alimentos como forma de dinamização das economias locais.

As contribuições da geografia cultural da paisagem a partir de três casos de política territorial no México são analisados em Aportes do enfoque da geografía cultural da paisagem para as políticas de desenvolvimento territorial no México na era da Covid-19. Utilizando como recurso metodológico a análise comparativa com casos europeus selecionados, este artigo tem como foco destacar os contributos da geografía cultural para práticas de governança comprometidas com processos de desenvolvimento territorial sustentável..

 Ao  discorrer sobre a experiência brasileira âmbito da administração pública, Transições de Governos Municipais em contexto de calamidade pública (2020) destaca a conjuntura que caracteriza o ano eleitoral de 2020 no Brasil e reflete sobre os desafios das municipalidades frente a pandemia de Covid-19. Ao propor um roteiro para o processo de transição governamental na área de educação, argumenta sobre a sua aplicabilidade em outras áreas de gestão pública.

O último artigo dessa edição intitulado Indicadores culturales de Soberanía Alimentaria; miradas y sentisaberes caucanos. Trata justamente sobre os impactos do atual cenário internacional da Covid-19, e como tal questão está e poderá estar presente enquanto impacto no que tange a soberanía alimentar, situação que fere principalmente a sobrevivencia dos mais pobres.

O dossiê finaliza com o ensaio teórico Sociedades de Controle e Agenciamento do Desenvolvimento. Tomando por referência o debate conceitual elaborado por Gilles Deleuze e Michel Foucault, este ensaio apresenta uma interpretação sobre o funcionamento das sociedades contemporâneas na condução de processos de desenvolvimento a partir de agências públicas e privadas a fim de revelar como a pandemia expõe a vertiginosa aceleração das comunicações cibernéticas.

Uma boa leitura!

Profª Drª Betty Nogueira Rocha

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ

Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial – RETE

Prof. Dr. Carlos Douglas de Sousa Oliveira

Universidade Federal Rural da Amazônia - UFRA

Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial – RETE

Prof. Dr. Javier Delgadillo Macías

Universidade Nacional Autônoma do México - UNAM

TODOS OS ARTIGOS ENCONTRAM-SE DISPONÍVEIS PARA DOWNLOALD APÓS O SUMÁRIO.

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SUMÁRIO

1.México. Economia, cidades e pandemia. Leituras da geografia ................................................. p. 07-25

2.A pandemia de Covid-19 e a pobreza nas zonas rurais do México .................................................. p. 26-48

3.Governança Territorial e Ação Coletiva para o Desenvolvimento Rural do Território Açu-Mossoró (RN) .................................................. p. 49-73

4.Redirecionar o enfoque territorial para o desenvolvimento rural: recuperar a centralidade da questão alimentar .................................................. p. 74-91

5.Estratégias de abastecimento de alimentos de agricultores na Mixteca de Oaxaca, no México, antes e durante a pandemia de Covid-19 ................................................. p. 92-107

6.Aportes do enfoque da geografía cultural da paisagem para as políticas de desenvolvimento territorial no México na era da Covid-19 ................................................. p. 108-131

7.Transições de Governos Municipais em contexto de calamidade pública (2020) .................................................. p.132-154

8.Indicadores culturales de Soberanía Alimentaria; miradas y sentisaberes caucanos ................................................. p. 155-181

9.Sociedades de Controle e Agenciamento do Desenvolvimento ................................................. p. 182-207

DESEJAMOS A TODOS UMA BOA LEITURA

CORDIALMENTE,

CORPO EDITORIAL

Publicado: 2020-12-28