A PANDEMIA COMO CENA DO CRIME
DISCURSOS PRESIDENCIAIS E A TEORIA DO DISCURSO CRIMINOGÊNICO FORENSE
DOI:
https://doi.org/10.20873/asel.v34iEspecial.23064Keywords:
Pandemia, Linguística Forense, Arqueogenealogia, Performatividade forense.Abstract
Neste artigo, tratamos a pandemia de COVID-19 como cena do crime e a palavra presidencial como arma letal. Com uma lente arqueogenealógica foucaultiana, combinada à Linguística Forense, reconstituímos a balística do negacionismo no Brasil, mostrando como enunciados presidenciais — de “gripezinha” a “virar jacaré” — funcionaram como enunciados criminogênicos, isto é, disparos de linguagem que reconfiguraram o campo do dizível, atrasaram respostas sanitárias e naturalizaram a morte. Metodologicamente, mobilizamos quatro instrumentos de perícia arqueológica discursiva (enunciado, a priori histórico, arquivo e A vida dos homens infames) para fixar a materialidade dos vestígios; e, genealogicamente, articulamos biopoder, necropolítica, governamentalidade, disciplina e A ordem do discurso para rastrear os efeitos de poder sobre a distribuição diferencial do risco e do luto. A partir dessa reconstituição, formulamos a Teoria do Discurso Criminogênico Forense e suas cinco categorias operacionais: enunciados criminogênicos, performatividade forense, arquivo necropolítico, ironia letal e responsabilidade discursiva. O laudo final indica nexo entre fala soberana, políticas de inação e danos mensuráveis: a ironia converte-se em técnica de governo; o arquivo de declarações, em dossiê de omissões; e a autoria, em assinatura discursiva de poder. Concluímos que a pandemia não foi apenas contexto, mas local do crime discursivo: cada palavra um tiro, cada riso uma bala simbólica, cada silêncio uma coautoria. O resultado é um quadro probatório que desloca a análise do discurso para o horizonte jurídico-forense e sustenta a imputação política e jurídica do governante enquanto criminoso discursivo.
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