MÚSICA E TERRITORIALIDADES NO BICO DO PAPAGAIO, TOCANTINS - BRASIL.
DOI:
https://doi.org/10.20873/n2920258Resumo
Em um país ainda com déficit de alfabetização e com pouca cultura de leitura, o alcance de uma música cantada por artistas populares nas mídias sociais possui dimensões maiores do que os textos. Foi nesse entremeio do percurso da pesquisa sobre o canto de Genésio Tocantins na música Coco Livre que se buscou integrar a letra aos dilemas e às territorialidades das mulheres quebradeiras de coco babaçu no Bico do Papagaio. O número de visualizações no YouTube alcançou a marca de 16 mil, e no Spotify, 6.596, em 2025. O alcance da música é proporcional, muitas vezes maior do que o texto escrito, atingindo públicos diversos, sejam eles rurais ou urbanos, pobres ou ricos, jovens ou idosos. Pensando sob esta perspectiva, verifica-se a importância dos cantos na luta pela manutenção das territorialidades de comunidades tradicionais, em parte invisibilizadas. Historicamente, a região do Bico do Papagaio foi palco de inúmeros conflitos agrários envolvendo populações extrativistas e fazendeiros. Nesse processo, as mulheres quebradeiras de coco babaçu representam um dos maiores símbolos de resistência ao território e de reexistência à vida, considerando o contexto de migração e embates no uso do território. Para expressar a vida e a luta dessas mulheres, utilizou-se uma música como base para análise do discurso, nas entrelinhas de uma luta de classe. Na letra da composição, há representações culturais tocantinenses, que criam elementos simbólicos retratados nas lutas e dilemas socioterritoriais de mulheres e famílias que vivem da quebra do coco. De certa forma, a letra da canção apresenta o sofrimento dessas famílias e, em especial, uma alusão às mulheres e seus significados (como “par” dialético) nas resiliências camponesas e na estrutura social rural desta região do país. A música constitui um importante veículo de comunicação, capaz de influenciar a construção do debate social nas comunidades de quebradeiras de coco, assim como alcançar públicos para além das bolhas sociais, uma vez que o artista canta para o Tocantins e para o Brasil. Implicitamente, há uma chamada para o debate nas terras de padre Josimo e de Raimunda Quebradeira de Coco, uma mulher representativa da resistência no conflito de Sete Barracas, em São Miguel do Tocantins–TO, e do enfrentamento às estruturas sociais impostas pelo machismo na região. Chamar o “Babaçu Livre” é um convite ao debate para refletir sobre a resistência das mulheres quebradeiras de coco babaçu e o enfrentamento ao envenenamento das palmeiras e às cercas das fazendas — algumas delas elétricas —, utilizadas como forma de impedimento pelos fazendeiros à entrada dessas mulheres em suas propriedades.
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