A edição 3

Resumo

Entre os dias 20 e 23 de março de 2018 realizou-se em Belém o III Seminário de Arquitetura Moderna na Amazônia, (III SAMA) Esta edição contou com a participação de um número expressivo de estudantes e pesquisadores que apresentaram trabalhos concernente às temáticas arquitetônica e urbanística da Região da Amazônia Legal, abrangendo pesquisas acadêmicas na área, realizadas em distintas universidades da região e inclusive fora do país. Para este número da Revista Amazônia Moderna foram pré-selecionados 15 artigos apresentados no seminário, dos quais, o comitê editorial da revista selecionou os seis aqui publicados.

 

Assim como a variedade e riqueza dos biomas e culturas encontrados na Amazônia, os artigos aqui publicados representam esse mosaico de expressões de projetos e obras, de arquitetura moderna e contemporânea, de projetos urbanos realizados ou somente idealizados por arquitetos amazônidas ou de outros estados que nos trazem, em abordagens diversas, as possibilidades do fazer arquitetônico e da destruição/construção do urbano em cidades amazônicas, desde a primeira metade do século XX até os dias atuais.

 

O artigo dos professores Conceição Trigueiros e Mario Saleiro investiga o conceito de flexibilidade, explorando essa questão no âmbito da teoria e prática na construção da habitação com o exemplo da Vila Serra do Navio. Ressalta, nas palavras dos autores, a antevisão de Bratke ao adotar a “adaptabilidade” no programa das habitações unifamiliares, e recolocam a espacialidade da arquitetura e o homem no centro dos debates e das reflexões a fim de se tentar construir um modelo brasileiro, entendendo, sobretudo, as diversidades culturais continentais do nosso próprio país.

 

Ao abordar em seu artigo a obra do arquiteto mato-grossense José Afonso Portocarrero,  as pesquisadoras Luana Martins e Victoria Macieski destacam o valor de suas pesquisas sobre habitação indígena e as contribuições que podem ser aportadas pelos seus projetos para o conhecimento das tecnologias indígenas de habitação, a partir de consulta ao próprio arquiteto e ao seu acervo pessoal.  As pesquisadoras analisam obras e projetos apontando referências e concepções projetuais que o arquiteto articula em uma linguagem própria, contemporânea e, por sua vez regional, considerando-se  as condicionantes locais e o respeito à arquitetura indígena e buscando-se unir memória e estratégias projetuais para recuperar a arquitetura de raízes. Dessa forma dão a conhecer o trabalho de um arquiteto em plena atividade, mas ainda pouco conhecido em outros estados da Amazônia brasileira. 

 

Ao analisar os processos de destruição nos espaços ecléticos no centro da cidade de Belém, o artigo de Samia Morhy e José Julio Lima põe em confronto a destruição do antigo e a construção do moderno, especialmente na substituição de tipologias edilícias. O objetivo é analisar as transformações causadas pela demolição e substituição a partir dos anos de 1960 de parte do casario eclético no bairro da Campina em Belém do Pará,  e como esse processo se relaciona com a modernização e verticalização da avenida Presidente Vargas e com o atual processo de degradação arquitetônica.

 

No artigo sobre a arquitetura de Sérgio Bernardes para Caracaraí, os autores Cláudia Nascimento, Paulina Ramalho, Arleisson Furo e Leonardo Oliveira se debruçam na investigação de obras emblemáticas, detendo-se no edifício sede da Prefeitura de Caracaraí, objetivando analisar as inserções de Bernardes nessa cidade, em consonância com as políticas de desenvolvimento para a Amazônia da década de 1970. Ainda pouco conhecido na região, o texto alerta para a necessidade de identificar e inventariar esse patrimônio, especialmente as obras construídas no estado de Roraima, e como enfatizam as autoras, se faz imprescindível e urgente num tempo em que a falta de perspectivas pode ser iluminada pelo farol do olhar que Bernardes lançou para Roraima.

 

Com o objetivo de reconhecer e analisar as qualidades históricas e arquitetônicas de um dos marcos da arquitetura moderna mato-grossense, o Cuyabá Golden Hotel, projetado na década de 1980, pelo escritório paulistano Botti Rubin, o artigo aborda sua concepção projetual com o processo de execução até hoje inacabado. Ricardo Castor, Matheus Cruz, Thaiz Santos e Gabriel Pessoa consideram a análise dessa importante obra do estado do Mato Grosso articulada às caraterísticas peculiares de sua arquitetura, na qual os autores identificam princípios do brutalismo paulista e ao mesmo tempo consideram o seu pioneirismo nas frentes de colonização, que de maneira indireta, contribuiu para sua construção.

 

Ao investigar as referências e contribuições do relatório do arquiteto português Viana de Lima para o Plano Diretor de 1975 da cidade de São Luís, os autores Paulo Henrique Vale e José Antônio Lopes analisaram documentos oficiais de planejamento anteriores e posteriores a ele, e identificaram suas contribuições para o planejamento urbano de São Luís no final do século XX. Dessa forma nos dão a conhecer importantes passagens da historia da cidade e da conservação e preservação do seu patrimônio, contribuindo, segundo os autores, com a instrumentalização dos atores locais para a leitura e a intervenção no acervo edilício e urbano de São Luís.

 

Portanto, esta edição da revista Amazônia Moderna representa um esforço conjunto para trazer à luz a diversidade de expressões, atores e contextos que conformam a construção da cultura arquitetônica na Amazônia brasileira, ao mesmo tempo em que sinalizam a  necessidade da continuidade do desenvolvimento das pesquisas para ampliar e disseminar esse conhecimento mais além dos muros da universidade, como as páginas da revista aqui apresentada.

 

Celma Chaves

Edirora convidada

 

Publicado
2018-11-30