Dossiê: Memórias em narrativas orais: história oral e oralidades sob os dilemas da cultura

           Considerada como um dos pontos de Arquimedes do historiador, atravessando o fazer por outras epistemes, a memória é tida como a potência que permite aos homens e às mulheres, no decorrer de sua frequência entre lembranças e/ou esquecimentos, capturar, de forma consciente ou não, elementos de uma experiência vivida. Para além de um mero repositório de impressões, sensibilidades e acontecimentos específicos, a memória padece, com algumas variações, do alvitre de fazer inscrições em aspectos do universo cultural, deixando seus rastros: objetos, documentos escritos, monumentos, oralidades e paisagens: campos semânticos para a construção de interpretações múltiplas.

            Partindo do pressuposto de que a memória é esta faculdade forjada a partir da vida e dos dilemas de sujeitos imersos nos campos das culturas, e que a própria noção de cultura nos remete a tarefa de revolver algo continuamente, tal como nas primevas atividades agrícolas de nossa espécie – se nos aconchegarmos nas compreensões de Raymond Williams[1] – não se pode, desse modo, ignorar as centenas de pesquisas históricas, historiografias, dentre outras, voltadas para as ditas e recorrentes revisitações temáticas nos últimos anos.

            A esse respeito e não há pouco tempo, historiadores e um sem número de pesquisadores afeitos aos estudos de oralidade, pelas “literaturas orais”, “oraturas” e performances artísticas, bem como antropólogos, cientistas sociais e estudiosos de cultura em geral preocuparam-se em destacar o dilema das metodologias e teorias, que, afeitas às temáticas da oralidades, tiveram seus aportes recolocados de ponta-cabeça quando permeadas para cenas sociais nas quais as identificações e as culturas são (re) criadas diariamente. Marieta Ferreira despertou nosso olhar para o “drama” metodológico enfrentado pelo pesquisador da história oral ou da oralidade que, ao conviver com testemunhas vivas, é re-apresentado às argúcias das readaptações, das contestações e dos redimensionamentos das experiências desses sujeitos históricos. Esse exercício sinaliza ao pesquisador refacção contínua, ruminando a percepção também pela escrita[2].

            A preocupação em problematizar experiências de pesquisa inseridas no esforço de recomposição de memórias por meio de narrativas orais, que levem em consideração reiteradamente contextos políticos, sociais, artísticos, econômicos e culturais do narrador e do pesquisador, enunciam, no exercício da fala e de escuta das oralidades, as próprias demandas e contingências do universo cultural[3]. Nesse sentido, o dossiê prioriza agregar pesquisas sobre história oral e oralidades voltadas para relatos de (re) composição de memórias, exercícios (re)interpretativos de deslocamentos ou confrontos/arranjos de pesquisadores no interior da temática circunscrita.    

Organizadores:

Prof. Dr. Jerônimo Silva e Silva (UNIFESSPA) – Doutor em Antropologia

Prof. Dr. Hiran de Moura Possas (UNIFESSPA) – Doutor em Semiótica e Comunicação

Profa. Dra. Idelma Santiago da Silva (UNIFESSPA) – Doutora em História

[1]WILLIAMS, Raymond. Palavras-chave: um vocabulário de cultura e sociedade. Tradução de Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Boitempo, 2007.

[2] FERREIRA, Marieta Moraes. Desafios e dilemas da história oral nos anos 90: o caso do Brasil. In: História Oral. Revista da Associação Brasileira de História Oral. Número 1, Junho de 1998, pp. 9-11.

[3] PORTELLI, Alessandro. Ensaios de História Oral. São Paulo: Letra e Voz, 2010, pp. 19-35.

Publicado: 2017-08-30