Revista Brasileira de Educação do Campo
The Brazilian Scientific Journal of Rural Education
EDITORIAL
DOI: http://dx.doi.org/10.20873/uft.rbec.e9894
Tocantinópolis/Brasil
v. 5
e9894
10.20873/uft.rbec.e9894
2020
ISSN: 2525-4863
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Dossiê temático: Formação e Trabalho Docente no Campo
e Educação Especial: uma interface necessária
Marily Oliveira Barbosa
1
, Ana Paula Cunha dos Santos Fernandes
2
, Arlindo Lins de Melo Júnior
3
1
Centro Universitário Maurício de Nassau - UNINASSAU. Departamento de Pedagogia. Avenida Augusto Franco, 2340,
Siqueira Campos. Aracaju - SE. Brasil.
2
Universidade do Estado do Pará - UEPA.
3
Universidade Federal de São Carlos -
UFSCar.
Autor para correspondência/Author for correspondence: marilyufal@gmail.com
O ano de 2020 tem dentre seus registros a Pandemia do novo coronavírus (COVID 19) -
uma doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, que apresenta um quadro clínico que
varia de infecções assintomáticas a quadros respiratórios graves que também atingiu
ferozmente os povos do campo, reacendendo a desigualdade e que impacta pela devassidão.
Nosso agradecimento a todos que lutaram veementemente por seu povo, suas terras, suas
identidades, quer professor, trabalhador rural, alunos, pais ou lideranças.
De modo singular, unimo-nos a Revista Brasileira de Educação do Campo e
apresentamos esse dossiê que aborda a Educação Especial e a Educação do Campo. A
Educação Especial é uma modalidade de educação escolar que perpassa todos seus níveis e
modalidades e que deve ser ofertada preferencialmente na rede regular de ensino para alunos
com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. Já
a Educação do Campo destina-se ao atendimento das populações do campo, como:
agricultores familiares, assalariados, assentados da Reforma Agrária, remanescentes de
quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, indígenas e tantos outros que vivem do e no campo. A
interface entre Educação Especial e Educação do Campo, sobretudo, no que tange à formação
e trabalho docente impõe a comunidade acadêmica o desafio de pensar a educação de sujeitos
cujas demandas sociais foram recentemente colocadas nas agendas públicas.
Os artigos desse dossiê foram organizados de maneira encadeada a fim de que se
somem em conhecimento e experiências. Ao todo são onze artigos desta instigante temática
que perpassa pela formação de professores, currículo, prática pedagógica e as políticas
educacionais da educação básica ao superior.
Barbosa, M. A., Fernandes, A. P. C. S., & Melo Júnior, A. L. (2020). Dossiê temático: Formação e Trabalho Docente no
Campo e Educação Especial: uma interface necessária...
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O primeiro artigo intitulado Interface das Políticas da Educação Especial e Educação
do Campo sobre a Formação de Professores, de Arlindo Lins de Melo Júnior (UFSCar),
Ivan Fortunato (IFSP) (UFSCar), Jackeline Silva Alves (UEG) (UFSCar) e Teresa Cristina
Leança Soares Alves (UFSCar), destaca ter encontrado pontos importantes sobre a formação
de professores e seus reflexos na escolarização de estudantes da educação especial nas escolas
do campo na interface das políticas da Educação Especial e Educação do/no Campo.
Destacam ainda que na interface das políticas a documentação investigada demonstra
preocupação com a qualidade da formação docente, embora o trate especificamente da
carreira e valorização profissional, nem de aspectos mais específicos sobre a atuação das
Instituições de Ensino Superior na formação.
Em seguida o artigo educação do campo e educação especial: interlocução entre
modalidades inclusivas na contemporaneidade, de Taiana Furtado dos Anjos (UFRRJ) e
Allan Rocha Damasceno (UFRRJ), evidencia os principais marcos legais da legislação
educacional brasileira, buscando identificar os elementos que estabelecem um diálogo entre a
Educação Especial e a Educação do Campo enquanto modalidades de Educação Inclusiva na
sociedade contemporânea, com destaque as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica
nas Escolas do Campo e suas Diretrizes Complementares e a Política Nacional de Educação
Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Tem-se como resultado a identificação dos
principais elementos de convergência que consolidam a interface entre as modalidades e
evidencia a necessária articulação precípua na consolidação das políticas públicas inclusivas
para os estudantes público-alvo da Educação Especial nas escolas do campo.
Outro artigo, intitulado Educação Especial na Educação do Campo: formação de
professores em universidades públicas do Rio Grande do Sul, de Graciele Marjana
Kraemer (UFRGS), Luciane Bresciani Lopes (UFRGS) e Liliane Ferrari Giordani (UFRGS),
problematiza como os saberes da Educação Especial são produzidos na formação para a
Educação do Campo. Constata a invisibilidade, o isolamento e a fragmentação dos saberes da
Educação Especial em relação aos demais saberes da grade curricular de formação em
Educação do Campo e destaca a necessidade de compreender a formação docente como uma
prática que requer investimentos permanentes para a constituição de uma cultura de
corresponsabilidade.
O quarto artigo, A Educação do Campo na Interface com a Educação Especial em
nível básico e superior no município de Dourados MS, de Jaqueline Machado Vieira
(UFGD) e Rodrigo Simão Camacho (UFGD), faz uma reflexão interdisciplinar relacionando
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duas grandes áreas das ciências da educação: a Educação do Campo e a Educação Especial e
analisa o caminhar desse processo da inclusão para pessoas com deficiência tendo como
recorte de análise, tanto a educação em nível básico quanto superior. A pesquisa pretendeu
responder como está se constituindo a formação de educadores do campo na perspectiva da
inclusão e, concomitantemente, como está ocorrendo superação das barreiras do direito a
acessibilidade de infraestruturas e de uso das TICs para pessoas com deficiência nas Escolas
Estaduais do Campo em Dourados MS.
Na sequência, o artigo intitulado Currículo e Educação Especial no/do Campo: o que
dizem as pesquisas sobre o tema, de João Henrique da Silva (UFRR) e Alessandra
Peternella (UFRR), analisa a produção científica oriunda de teses e dissertações produzidas
no Brasil sobre a temática da educação especial no/do campo, bem como se elas tratam e
como tratam do currículo escolar para esses sujeitos. E revela que há 31 trabalhos sobre o
tema da educação especial no/do campo nos últimos 25 anos. Desses, somente 5 trabalhos
tratam do currículo escolar no/do campo para o público-alvo da educação especial, porém não
diretamente, mas como um tema que emerge da temática principal tratada por seus autores.
O sexto artigo sob título Educação Especial em Escolas do Campo: um recorte sobre
a inclusão educacional no interior do Espírito Santo, de Andressa Dias Koehler (UFES),
Taiane Christo Chaga (UFES) e Lucimar Stein Kuster (UFES), busca analisar como tem
acontecido a inclusão de estudantes público-alvo da educação especial nas instituições a partir
do depoimento dos docentes. Ainda constata que alguns impasses dessas escolas quanto à
inclusão desse público são semelhantes ao que se verifica em contextos urbanos, por exemplo,
a formação de professores e a necessidade de investimentos públicos. Todavia, quando
somados às realidades geográficas, sociais e culturais do contexto campesino, percebe-se a
necessidade de um olhar mais aplicado à educação especial no/do campo.
O artigo Práticas Inclusivas no curso de Licenciatura em educação do campo na
universidade federal de viçosa: atuação multidisciplinar de um projeto de letramento
voltado à formação de uma discente surda, de Carlos Antonio Jacinto (UFV), Cristiane
Lopes Rocha de Oliveira (UFV), Danila Ribeiro Gomes (UFV), Idalena Oliveira Chaves
(UFV) e Vinícius Catão de Assis Souza (UFV), é o sétimo artigo e discute as demandas
educacionais e linguísticas de uma estudante Surda da Licenciatura em Educação do Campo,
a partir dos saberes acerca dos letramentos bilíngue e científico, atendida por uma equipe
multidisciplinar que desenvolveu ações estratégicas no sentido da inclusão. As ações
apontaram a pertinência e viabilidade de se considerar a participação efetiva da discente Surda
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como agente orientador de todo o processo educacional, visto que a articulação da equipe
foi possível a partir das considerações e apontamentos dados pela mesma.
O oitavo artigo, intitulado Práticas Pedagógicas desenvolvidas com alunos com
deficiência: um estudo de caso em uma escola do campo de Feira de Santana-BA, de
Priscilia Natália Ferreira (UFRB) e Klayton Santana Porto (UFRB), apresenta as práticas
pedagógicas desenvolvidas pelos professores de uma escola do campo da Rede Municipal de
Educação de Feira de Santana-BA, situada no Distrito de Maria Quitéria, no processo de
inclusão de alunos com deficiência, matriculados nos anos finais do Ensino Fundamental.
Revela que, apesar dos estudantes com deficiência terem suas matrículas e o acesso à escola
garantidos por lei, a falta de acessibilidade, de formação qualificada faz com que esta
educação fornecida a eles seja negligenciada, e as professoras investigadas apontaram
algumas dificuldades para o ensino e aprendizagem de estudantes com deficiência.
O nono artigo, A escolarização de estudantes público-alvo da Educação Especial na
Educação do Campo no município de Boa Vista/RR, de Edineide Rodrigues dos Santos
(Secretaria de Estado da Educação e Desporto de Roraima) e Maria Edith Romano Siems
(UFRR), apresenta resultados de uma pesquisa que objetiva compreender o processo de
escolarização do público-alvo da Educação Especial nas escolas estaduais de ensino
fundamental e médio da Educação do Campo no município de Boa Vista. Desenvolvida no
contexto de um mestrado em educação, aponta para a inexistência de acessibilidade
arquitetônica, urbanística, de comunicação e de transporte; que o Atendimento Educacional
Especializado realizado não era ofertado em conformidade com a legislação; que as Salas de
Recursos Multifuncionais não se mostravam adequadas para o Atendimento Educacional
Especializado e que a maioria dos professores não tinha formação na área de Educação
Especial, contrariando o preconizado na legislação vigente.
Em seguida, o décimo artigo Inclusão de alunos da Educação Especial em escola do
campo: possibilidades de um trabalho colaborativo?, de Washington Cesar Shoiti Nozu
(UFGD), Mônica Aparecida Souza da Silva (Prefeitura Municipal de Ponta Porã/MS), Bruno
Carvalho dos Santos (UFGD) e Eduardo Adão Ribeiro (Faculdade Anhanguera de Dourados),
descreve a contingência do processo de inclusão em uma escola do campo, com ênfase no
trabalho pedagógico realizado pelos professores regentes e especialistas para o atendimento
das necessidades educacionais especiais dos estudantes com deficiência, transtornos globais
do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação definidos como Público-Alvo da
Educação Especial (PAEE). Foi sistematizado em dois eixos: o primeiro contextualizou a
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escola do campo, sua estrutura e funcionamento, o número de matrículas gerais e de alunos
PAEE e os serviços de Educação Especial disponíveis. O segundo atentou-se às relações entre
os professores regentes e os professores especialistas, bem como apresentou o
desenvolvimento das sessões reflexivas destinadas à construção de um trabalho colaborativo
para a potencialização da inclusão dos estudantes PAEE na escola do campo.
O décimo primeiro e último artigo sob o título Escolas da ilha de Mosqueiro e a
relação com a Educação Especial, de Ana Paula Cunha dos Santos Fernandes (UEPA) e
Iranildo da Silva Oliveira (UEPA), analisa a estrutura e o funcionamento das escolas da ilha
de Mosqueiro que relacionam a formação e o trabalho docente na escolarização do aluno
público-alvo da Educação Especial, vinculadas ao sistema municipal de ensino de Belém. Os
autores revelam a insuficiência dos recursos materiais e a formação dissociada, contrapondo o
Plano Nacional de Educação 2014-2024 (PNE), planejamento conjunto entre professor de
Educação Especial e Sala de aula comum, dentre outros.
Agradecidos por cada colaboração dos autores e parceria da Revista Brasileira de
Educação do Campo por trilhar e ousar na divulgação das pesquisas refletidas nas discussões
compartilhadas e que o leitor possa navegar e compartilhar essas valiosas contribuições.
Sigamos!
Informações do Editorial / Editorial Information
Conflitos de interesse: Os(as) organizadores(as) declararam não haver nenhum conflito de interesses referentes a este Editorial.
Conflict of Interest: None reported.
Orcid
Marily Oliveira Barbosa
https://orcid.org/0000-0001-8189-4234
Ana Paula Cunha dos Santos Fernandes
https://orcid.org/0000-0003-1934-9221
Arlindo Lins de Melo Júnior
http://orcid.org/0000-0003-2391-4772
Como citar este Editorial / How to cite this Editorial
APA
Barbosa, M. A., Fernandes, A. P. C. S., & Melo Júnior, A. L. (2020). Dossiê temático: Formação e Trabalho Docente no Campo e
Educação Especial: uma interface necessária. Rev. Bras. Educ. Camp., 5, e9894. http://dx.doi.org/10.20873/uft.rbec.e9894
ABNT
BARBOSA, M. A.; FERNANDES, A. P. C. S.; MELO JÚNIOR, A. L. Dossiê temático: Formação e Trabalho Docente no Campo e
Educação Especial: uma interface necessária. Rev. Bras. Educ. Camp., Tocantinópolis, v. 5, e9894, 2020.
http://dx.doi.org/10.20873/uft.rbec.e9894