Revista Brasileira de Educação do Campo
Brazilian Journal of Rural Education
ARTIGO/ARTICLE/ARTÍCULO
DOI: http://dx.doi.org/10.20873/uft.rbec.e9796
Tocantinópolis/Brasil
v. 6
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2021
ISSN: 2525-4863
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Universidade da vida, ação racional e comunicativa de um
líder de movimento social
Eloy Alves Filho
1
, Vitor Souza Lima Blotta
2
, Osvaldo Freitas de Jesus
3
1, 3
Universidade de Uberaba - UNIUBE. Programa de Pós-Graduação em Educação Básica (PPGED). Campus Uberlândia.
Avenida Afonso Pena, 1.117, Centro, Uberlândia - MG. Brasil.
2
Universidade de São Paulo - USP.
Autor para correspondência/Author for correspondence: eafilho@ufv.br
RESUMO. O objetivo primordial deste artigo é a compreensão
das ações sociais desempenhadas por Lourival Soares da Silva,
que se destacou por uma vida dedicada à militância nos
movimentos dos trabalhadores rurais, atuando há vários anos
como presidente da Associação do Assentamento Rio das
Pedras, em Uberlândia. Para compreender e analisar suas ações,
foi utilizada uma abordagem qualitativa, observacional e
também entrevistas semiestruturadas, na perspectiva
metodológica da história oral. O referencial teórico consistiu
numa combinação da sociologia compreensiva de Max Weber,
que tem como fundamento a compreensão da conduta humana
dotada de sentido, mais especificamente a ação racional em
relação a valores, com a teoria da ação comunicativa de Jürgen
Habermas, centrada nas ações orientadas pelos acordos
intersubjetivos que se revelam na linguagem e na comunicação.
Conclui-se que os significados vinculados às ações sociais
executadas pelo líder de movimento social sintetizam-se nas
categorias baseadas nos valores igualdade, justiça, direito ao
trabalho, diálogo, democracia e ação social coletiva. Além disso,
esses padrões éticos e emancipatórios não se resumem ao seu
aspecto finalístico, ou em seus resultados, mas, sobretudo no
valor de um proceder cotidiano que está muito presente no
imaginário dos movimentos sociais.
Palavras-chave: movimentos sociais, ação social orientada a
valores, ação comunicativa, educação extra escolar, liderança.
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University of life, rational and communicative action of a
social movement leader
ABSTRACT. This article has as objective the understanding of
the social actions performed by Lourival Soares da Silva, who
stood out for a life dedicated to activism in the movements of
rural workers acting for several years as president of the Rio das
Pedras Settlement Association, in Uberlândia. To understand
and analyze their actions, a qualitative, observational approach
was used and also through semi-structured interviews, in the
methodological perspective of oral history. The theoretical
framework consisted of a combination of Max Weber's
comprehensive sociology, which is based on the understanding
of human conduct endowed with meaning, more specifically the
rational action in relation to values, with Jürgen Habermas'
theory of communicative action, centered on oriented actions by
the intersubjective agreements that are revealed in language and
communication. It is concluded that the meanings linked to the
social actions carried out by the social movement leader are
summarized in categories based on the values of equality,
justice, right to work, dialogue, democracy and collective social
action. These ethical and emancipatory standards are not limited
to their finalistic aspect, or their results, but above all in the
value of a daily course that is very present in the imagination of
social movements.
Keywords: social movements, social action oriented to values,
communicative action, extra-school education, leadership.
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Trayectoria de vida, acción racional y comunicativa de un
líder de movimiento social
RESUMEN. Este artículo tiene como objectivo la comprensión
de las acciones sociales realizadas por Lourival Soares da Silva,
quien se destacó por una vida dedicada a los movimientos de
trabajadores rurales, actuando durante varios años como
presidente de la Asociación de lo Asentamiento Rio das Pedras,
en Uberlândia. Para comprender sus acciones, se utilizó un
enfoque cualitativo, observacional y de entrevistas
semiestructuradas, con base en la historia oral. El marco teórico
consistió en una combinación de la sociología integral de Max
Weber, que se basa en la comprensión de la conducta humana
dotada de significado, más específicamente la acción racional en
relación con los valores, con la teoría de la acción comunicativa
de Jürgen Habermas, centrada en acciones orientadas por los
acuerdos intersubjetivos que se revelan en el lenguaje y la
comunicación. Los significados vinculados a las acciones
sociales llevadas a cabo por el der del movimiento social se
resumen en categorías basadas en los valores de igualdad,
justicia, derecho al trabajo, diálogo, democracia y acción social
colectiva. Estos estándares emancipatorios no se limitan su
aspecto finalista o sus resultados, mas sobre todo en el valor de
un curso diario que está muy presente en la imaginación de los
movimientos sociales.
Palabras clave: movimientos sociales, acción social orientada a
valores, acción comunicativa, educación extra escolar,
liderazgo.
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Introdução
Este artigo é parte de uma pesquisa
desenvolvida junto ao Curso de Mestrado
Profissional em Educação: Formação
Docente para a Educação Básica da
Universidade de Uberaba, no âmbito do
Grupo de Pesquisa em Formação Docente,
Práticas Pedagógicas e Direito de Aprender
FORDAPP do CNPq.
O objetivo é analisar os sentidos que
um líder de trabalhadores rurais, pouco
conhecido nos meios acadêmicos, atribui à
sua história de vida e às suas lutas sociais,
não apenas pela posse da terra para
camponeses no Triângulo Mineiro, mas
também pela inclusão da classe
trabalhadora no processo produtivo como
forma de superação da subalternidade, de
conquista da autonomia, de inclusão social
e igualdade. Trata-se de analisar como um
líder que personifica e vivencia
diuturnamente os movimentos sociais pela
terra atribui sentido a uma vida inteira de
luta.
A abordagem teórica do estudo tem
por base a teoria da ação social de Max
Weber, em diálogo com a teoria da ação
comunicativa de Jürgen Habermas. Os
autores alemães, fazem uso de categorias
analíticas que facilitam a compreensão dos
sentidos e das normas que orientam ações
cotidianas de indivíduos. O que os
diferencia é que, enquanto Weber centra-se
nas percepções e expectativas cognitivas
do indivíduo em relação às ações dos
outros, Habermas defende que essas
percepções e expectativas são possíveis
a partir do reconhecimento intersubjetivo,
e, portanto, coletivo de normas sociais que
se revelam no uso cotidiano da linguagem.
Utilizando alguns dos contrastes e
complementaridades entre essas duas
teorias, será possível analisar as dimensões
dos significados que o líder social atribui
às suas escolhas de vida e de militância,
permitindo diferenciarmos entre interesses
mais individuais e coletivos, e entre
motivos mais pessoais, instrumentais,
tradicionais ou socialmente orientados.
Nosso desafio é compreender por que,
mesmo não concretizando plenamente seus
ideais mais altos de distribuição de terras e
justiça social para seus companheiros, o
líder ainda se orienta pelos valores da luta
social, da justiça e da igualdade.
Essas abordagens teóricas informam
as análises empíricas, de cunho qualitativo,
que se organizam no formato de um estudo
exploratório com base em história oral
temática, para identificar os significados
atribuídos às condutas do líder de
movimento social Lourival Soares da
Silva.
Os materiais e instrumentos
utilizados para essa análise empírica são
compostos de relatos de colegas,
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documentos dos movimentos sociais e
resgates de memórias do sujeito da
pesquisa, por meio de diversas entrevistas
semiestruturadas. As entrevistas foram
gravadas e, posteriormente, transcritas.
Seus relatos detalhados, espontâneos e sem
qualquer restrição de tempo ou fator
externo, contribuíram para a compreensão
sobre os significados de suas ações sociais
e revelaram a vinculação de suas ações às
categorias baseadas em valores religiosos,
igualdade, mudança social, inclusão,
trabalho e educação. Esses valores fizeram
e continuam a fazer parte de suas
convicções políticas por igualdade de
direitos, de produção para subsistência,
exercidas pela contínua atuação na luta
pela obtenção da terra e consolidação dos
novos proprietários como agricultores
familiares inseridos do processo de
produção e comercialização de seus
produtos.
O artigo está estruturado em três
partes. A primeira é dedicada à discussão
da abordagem teórica com base nas teorias
da ação; a segunda se volta para a
metodologia da análise empírica; e a
terceira traz a análise dos achados,
divididos em três tópicos, seguida das
considerações finais. Esperamos que o
estudo possa contribuir para compreensões
mais profundas sobre movimentos sociais
ligados ao direito à terra, além de refinar
teorias que buscam elementos motivadores
das ações e lutas sociais.
Abordagem teórica: ação social
orientada por valores, ação
comunicativa e movimentos sociais
Para Weber, o objeto de estudo da
sociologia é a ação social. Para orientar
seus estudos, formulou um método
chamado tipo ideal que consiste na
construção de um modelo de análise para
compreensão racional da realidade a ser
analisada. Com base nos modelos ideais,
Weber formulou quatro tipos puros de ação
social, os quais, por serem ideais e puros,
encontram-se sempre parcialmente ou
sobrepostos na realidade: a ação racional
com relação a fins, a ação racional com
relação a valores, a ação afetiva e a ação
tradicional. Resumimos abaixo a definição
de cada uma delas, parafraseando Weber
(2012).
A) Ação social racional com relação
a fins: refere-se ao indivíduo que tem um
objetivo que orienta sua ação. Este objetivo
tem caráter racional, pois, para atingir os
fins pretendidos nas ações sociais, o
indivíduo seleciona os meios adequados
para realizá-los, levando em conta
expectativas de comportamentos dos
outros. Um exemplo deste tipo de ação
poderia ser a busca por qualificação
visando a uma promoção profissional ou a
uma pesquisa científica.
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B) Ação racional com respeito a
valores: diferentemente da ão social
racional, o importante, neste caso, não é o
fim ou o resultado em si, mas o meio que
motiva ação. Esse meio refere-se ao valor
intrínseco às crenças, às convicções
religiosas, à política, aos valores éticos ou
estéticos inerentes ao comportamento do
sujeito.
C) Ação afetiva: São as ações que se
orientam exclusivamente por meio das
emoções e sentimentos, como descarga
emocional ou sublimação, sem levar em
consideração os meios para realizar os seus
objetivos. Uma ação contemplativa de um
religioso ou de entrega de uma mãe
dedicada seriam exemplos de ação afetiva.
D) Ação tradicional: refere-se a
ações conduzidas pelo peso do passado,
guiadas pelas tradições e costumes
arraigados. Desfiles cívicos, festas
comemorativas e as tradições culturais são
exemplos de ações que se guiam pelo
passado e pelo costume.
Em A Ética Protestante e o Espírito
do Capitalismo (1996), Weber abre espaço
em suas pesquisas para o indivíduo. Sua
teoria busca contemplar diversos aspectos
da realidade social, partindo da abordagem
cultural e perpassando a questão política.
Para ele, a conduta humana é uma ação
social toda vez que o sujeito da ação lhe
atribui um sentido subjetivo em relação aos
outros, isto é, diante da expectativa de
comportamento dos outros sujeitos
participantes do processo social.
Seguindo este pensamento, Weber
afirma que o objeto da sociologia é a busca
pelo entendimento sobre o sentido das
ações humanas, o que lhe permite oferecer
a compreensão ideal dos fenômenos
sociais. Ressalte-se que existe ação
social quando sentido na ação, ou seja,
quando o indivíduo estabelece algum
vínculo comunicativo e social com outros
indivíduos que interagem na sociedade.
Para o filósofo e sociólogo Jürgen
Habermas, contudo, esse vínculo
comunicativo e de reciprocidade por trás
da ação social não teria sido aprofundado
na teoria de Weber, levando-o a se manter
numa racionalidade de meios e fins,
mesmo na ação orientada por valores.
Neste caso, ainda que os valores não
fossem os fins específicos das ões, sua
validade seria baseada numa avaliação dos
comportamentos em relação a esses valores
supremos. Além disso, o sentido das ações
dependeria da interpretação de percepções
e crenças individuais, o que limita a
reciprocidade às relações de atores que
buscam influenciar um ao outro mais do
que agir conforme entendimentos e valores
compartilhados.
É por isso que Habermas procura
revelar uma forma de ação social que
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considera de modo mais aprofundado essas
relações de reciprocidade entre atores, para
além de uma lógica de competição. Trata-
se da ação comunicativa, uma forma de
ação cujos sentidos precisam ser
reconstruídos em situações concretas, por
meio das crenças compartilhadas que
motivam o agir, e que se revelam nos
conteúdos e estrutura da linguagem
cotidiana, e não na intencionalidade dos
atores. Nas palavras de Habermas, a ação
comunicativa ocorre quando
...as ações dos agentes envolvidos
são coordenadas não por cálculos
egocêntricos de sucesso, mas por atos
para buscar entendimento. Isso não é
uma questão dos predicados que um
observador usa ao descrever
processos para buscar entendimento,
mas do conhecimento pré-teórico de
falantes competentes, que podem eles
mesmos distinguir situações em que
estão exercendo causalmente uma
influência sobre outros daquelas em
que eles estão chegando a um
entendimento com eles, e que sabem
quando suas tentativas falharam.
(Habermas, 1984, p. 285-286. Livre
tradução do inglês).
Para estabelecer os parâmetros
analíticos deste estudo, portanto, o diálogo
entre a ação referente a valores de Weber e
a ação comunicativa de Habermas
permitirá identificar o somente quais
valores orientaram a conduta de vida do
líder Lourival Soares da Silva e as relações
entre eles, mas também se tais valores são
utilizados para medir o sucesso de suas
ações, ou se advieram de entendimentos
coletivamente construídos ao longo da sua
vida, independentemente de atingir
determinados fins.
Para qualificar essa dimensão
coletiva da formação dos valores e
comportamentos do Lourival Soares da
Silva, vale destacar, dentro da teoria dos
movimentos sociais, o paradigma da
identidade coletiva, proposto por Melucci
(1994). Sua abordagem microssocietal
combina a análise das subjetividades dos
indivíduos com a análise das condições
político-ideológicas de um dado contexto
histórico. Melucci se interessava pela
dimensão pessoal da vida social porque
estava convencido de que as pessoas não
são simplesmente moldadas por condições
estruturais. Elas sempre se adaptam e dão
um sentido próprio às condições que
determinam as suas vidas. Além disso,
como diz Melucci: ... “eu sempre tive um
interesse profundo pelas estruturas
emocionais porque não me considero
apenas um indivíduo racional” (Melucci,
1994, p. 153).
À semelhança dos movimentos
sociais, Melucci apropria-se desses
elementos essenciais para analisar o
fenômeno da ação coletiva:
A ação coletiva deve ser considerada
como uma interação de objetivos e
obstáculos, como uma orientação
intencional que é estabelecida dentro
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de um sistema de oportunidade e
coerções. Os movimentos são
sistemas de ação que operam num
campo sistêmico de possibilidade e
limites. É nesse sentido que a
organização se torna um campo
crítico de observação, um nível
analítico que não pode ser ignorada
(Melucci, 2001, p. 52).
Para o autor, um movimento social é
uma ação coletiva pautada pela
solidariedade, mas manifesta um conflito e
implica na ruptura dos limites de
compatibilidade do sistema no qual está
inserido. Nesse aspecto, um movimento é
concebido como a mobilização de um ator
coletivo, fundamentado em uma
solidariedade e objetivos específicos, e que
luta pela apropriação de recursos materiais
e simbólicos negados ao seu grupo
(Melucci, 2001).
Na perspectiva de Melucci, a ação
coletiva contemporânea aparece sob a
forma de trama subjacente na vida
cotidiana. No interior dessas tramas, os
sujeitos vão elaborando um novo discurso,
novos símbolos e códigos de conduta, ao
buscar e vivenciar novas formas de poder,
por meio de práticas inovadoras,
descentralizadas e democráticas que, ao
serem publicizadas, mostram aos
representantes institucionais que uma outra
sociedade, mais justa e menos subalterna,
assim como uma forma de vida diferente,
são possíveis.
Melucci (2001) pondera que os
movimentos sociais contemporâneos não
lutam apenas para obter bens materiais ou
para ter uma participação maior no sistema
político. Ao contrário, lutam por projetos
simbólicos, valores sociais e culturais, por
um significado e uma orientação diferentes
da ação social meramente finalística. Os
movimentos sociais geram novas
linguagens, novas metodologias de ação,
novos códigos, novos símbolos e valores
que, paulatinamente, vão sendo
incorporados pelos atores em suas diversas
práticas de militância nas diferentes esferas
da vida social. Para Melucci, essas são as
maiores contribuições dos movimentos
sociais e ações coletivas. Sua própria
existência sinaliza à sociedade que alguma
coisa não vai bem.
Os movimentos sociais não são
vistos somente como portadores de novas
mensagens culturais, sociais e políticas.
Também são organizações que desafiam o
poder político vigente ao optar pela
mobilização popular como forma de
expressão e para reivindicar direitos não
atendidos. Constituem-se como agentes de
modernização, estimulam a inovação,
alavancam reformas socioeconômicas e
criam novas metodologias de ação. Em
nosso caso, destacamos a importância da
educação do campo nas trajetórias de
conscientização e de mobilização social de
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líderes populares, como ocorreu com
Lourival Soares da Silva.
As propostas preconizadas pela
educação do campo visam a consolidar a
formação humana a partir de um trabalho
de busca da humanização dos sujeitos, que
é necessária porque o ser humano é um ser
inacabado que, para Freire (2011), está em
processo de formação por meio da
educação até atingir sua completude. Nesse
sentido, Arroyo (2004) destaca a educação
como sendo um processo de transformação
e emancipação humana, ressaltando os
valores do homem do campo como parte
do processo contra-hegemônico e da
história da emancipação social.
Apoiados nas ideias de Kolling e
Molina (1999) os estudiosos da Educação
do Campo, assim como o faz Lourival com
sua história de vida e luta política,
aceitaram o desafio de elaborar “uma
proposta de educação básica que assuma
de fato a identidade do meio rural, não
como forma cultural diferenciada, mas
principalmente como ajuda efetiva no
contexto específico de um novo projeto de
desenvolvimento do campo”. Como
veremos neste estudo, esse pressuposto
norteou a as ações do líder de movimento
social pela educação do campo, na luta
pela posse da terra e pela produção
agropecuária sustentável (Id., p. 20),
Metodologia e contexto da pesquisa
Com a utilização do referencial
teórico de Max Weber e sua Sociologia
Compreensiva (1989; 1994), este estudo
interpreta a ação social a partir do sentido
de que o indivíduo confere à sua
participação social (Cohn, 1999; 2003).
Para complementar essa perspectiva com a
Teoria da Ação Comunicativa de Jürgen
Habermas (1984), pode-se também
identificar em que medida os valores
compartilhados e a reciprocidade dos
comportamentos do indivíduo com seus
companheiros ou outros indivíduos têm
origem em fins determinados, ou se são
construídos a partir de interpretações
comuns do mundo que o motivam a agir de
determinada forma, independentemente de
resultados efetivos obtidos.
Em termos metodológicos, dados os
objetivos e características do estudo,
optou-se por utilizar uma abordagem
qualitativa que busca a interpretação do
mundo real, com o foco da pesquisa
voltado para a análise e compreensão dos
fenômenos que incorporam experiências
subjetivas, mescladas aos efeitos nos
contextos institucionais, políticos e sociais.
Trata-se da pesquisa qualitativa que, nas
palavras de Minayo (2001, p. 21-22), “...
trabalha com o universo de significados,
motivos, aspirações, crenças, valores e
atitudes, o que corresponde a um espaço
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mais profundo das relações, dos processos
e dos fenômenos que não podem ser
reduzidos à operacionalização de
variáveis’.
Na primeira parte da pesquisa foi
realizado um estudo exploratório para
obter um conhecimento mais amplo sobre
a vida do Lourival, desde a formação dos
movimentos sociais que militam pela posse
da terra no Triângulo Mineiro a partir da
década de 1980, até a implementação do
Projeto de Assentamento Rio das Pedras,
no Município de Uberlândia, onde o sujeito
da pesquisa é, atualmente, assentado e
Presidente da Associação do Assentamento
Rio das Pedras há vários anos.
Ao longo da pesquisa exploratória,
foram coletados dados sobre o
assentamento e atuação dos movimentos
sociais junto ao Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária- INCRA-,
realizadas entrevistas livres com
moradores do assentamento e
companheiros de militância com uma
postura de ouvinte, permitindo que esses
atores de diferentes idades e funções
pudessem expressar com toda liberdade
suas opiniões e posições sobre o tema do
estudo. Este procedimento, pautado nos
critérios da pesquisa qualitativa, permite
formar uma base de averiguações de um
tema específico na busca por uma visão
geral e sobre determinados fatos
característicos que enriquecem o estudo.
(Triviños, 1987; Gil 2008).
A partir desse levantamento de dados
e informações, além do conhecimento
pessoal e relação institucional com o
INCRA, onde o primeiro autor exerceu os
papéis de Consultor e o cargo de
Superintendente Regional para Minas
Gerais por cinco anos, confirmou-se a
importância da atuação do Lourival e
justificou-se a escolha deste ator como
personagem central deste estudo. Trata-se
de um homem praticamente sem educação
formal, trabalhador rural, um líder
anônimo que, mais de 30 anos, milita
pelo acesso à terra para que sua família e
companheiros possam viver e produzir,
tenham inclusão social e o usufruto de seus
direitos humanos, sobretudo os sociais.
Esse conjunto de ideias que guiou a
vida do Lourival constitui um imaginário
social, aqui entendido como uma forma de
expressão em um sentido diferente do que
habitualmente é chamado de realidade.
Para Baczko (1985), as relações sociais
requerem que o ser humano perpetue sua
existência, assim como seus atos, em
imagens ou escritas, o que subentende uma
concretização de conceitos abstratos e
valores socioculturais. Portanto, ao
atualizar a memória de grupos sociais, por
meio de suas falas, é recomendado destacar
as ações sociais de seus integrantes ou
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personagem público marcante,
especialmente no contexto histórico. Esse
trabalho oferece condições para que seja
dado reconhecimento e continuidade pelas
gerações seguintes ao imaginário social
então construído por esses grupos.
O procedimento escolhido para gerar
um conhecimento histórico e do presente
foi a história oral. Para tanto, o
pesquisador, segundo Harres (2008), pode
usar fontes orais para atingir os objetivos
satisfatoriamente e esta foi a nossa opção
metodológica. A pesquisa conduzida por
meio da história oral se destaca por uma
seleção criteriosa das fontes genuinamente
representativas dos fenômenos analisados
e, neste sentido, a técnica de entrevistas
constitui o cerne da investigação. Por esta
razão, o processo de seleção dos
entrevistados, a escolha do momento e
local adequados bem como um roteiro
coerente e sequencial se tornam essenciais
para o sucesso do estudo. O processo de
pesquisa, com o uso da história oral,
envolve o entrevistador, o entrevistado, a
aparelhagem da gravação, o ambiente, a
linguagem adequada para compreender o
interlocutor, bem como a busca de fontes e
documentos a fim registrar fielmente, por
meio de narrativas induzidas e estimuladas,
testemunhos, versões e interpretações
sobre a vida e a história em análise.
A utilização da fonte oral permite
documentar com propriedade e riqueza de
detalhes, as emoções e, no nosso caso, as
ações racionais com respeito a valores e às
ações comunicativas praticadas pelo
entrevistado. Essa metodologia permite
que a história de pessoas ou grupos
mantidos subalternos ou excluídos seja
construída e tornada pública. Algumas das
contribuições da história oral, segundo
Philippe Joutard (1999, p. 33) podem ser
analisadas em três atitudes: 1) ouvir a voz
dos excluídos e dos esquecidos; 2) dar
visibilidade para as realidades
“indescritíveis” e 3) testemunhar as
situações de extremo abandono.
Esses aspectos são pertinentes e
significativos para a história oral brasileira,
pois permitem aos estudiosos e militantes
de movimentos sociais denunciar
injustiças, dar visibilidade aos sujeitos
anônimos, convidar os integrantes desses
movimentos, acadêmicos e agentes
públicos a reflexões profundas sobre
desigualdades e exclusões, bem como
propor soluções para alguns dos inúmeros
problemas socioeconômicos do povo
brasileiro. A metodologia da história oral
nos permite investigar os problemas sociais
mais profundos de nossa sociedade como a
questão da concentração fundiária, a luta
pela posse da terra que não cumpre sua
função social por grupos de trabalhadores
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rurais sem terras; a luta por moradia nos
espaços urbanos; a demarcação das terras
indígenas, etc. Enfim, a história oral tem
contribuído para a compreensão de nossa
realidade social apoiada nas ações e lutas
dos sujeitos que fazem a história desses
grupos sociais.
As ricas palavras de Thompson
resumem a trajetória de nossos atores
anônimos: “A história oral devolve a
história às pessoas em suas próprias
palavras. E, ao lhes dar um passado, ajuda-
as também a caminhar para um futuro
construído por elas mesmas”. (Thompson,
1998, p. 337).
Nesse aspecto, a história oral
concede a palavra cheia de significados,
suor e não raro sangue aos silenciosos
construtores da história brasileira. Neste
sentido, metodologicamente, o processo
investigativo foi conduzido sobre o
componente fundamental: a história oral
por meio da memória e das experiências de
um protagonista vivo.
A memória, nesse aspecto, pode ser
considerada o fundamento da história oral,
da qual significados são extraídos e
conservados. A memória, o tempo e a
história caminham lado a lado. A
lembrança do indivíduo ao longo do tempo
faz parte integrante da historicidade.
Delgado (2003, p. 10) a entende como um
processo contínuo e em permanente devir,
pois "orienta perspectivas e visões sobre o
passado, avaliações sobre o presente e
projeções sobre o futuro". É nessa
perspectiva que são interpretadas as ações
e sensações do der social que construiu
uma história pessoal e, sobretudo coletiva.
Optou-se por esta metodologia por
ser considerada criativa e interativa o que
nos induz a trabalhar com muitos aspectos
de idealizações sobre fatos e fenômenos,
mantidos nas memórias das pessoas, cujos
registros escritos são inexistentes ou
incompletos, pois como afirma Freitas
(2006, p. 62) "o discurso oral, natural e
espontâneo, é muito mais detalhado e
expressivo, ao passo que o discurso escrito
é mais formal, elaborado e estereotipado".
Dessa forma, a metodologia da história
oral se torna preferencial, pois “... tem o
seu lugar como fonte principal da
investigação e envolve um conjunto de
entrevistas, que funciona como
amostragem significativa, expressiva, pela
qual, elementos essenciais do universo em
análise devem estar presentes” (Santos &
Araujo, 2007, p. 195).
O resgate da história do líder
Lourival consiste em um texto do
tipo narrativo em que os acontecimentos
seguem uma ordem cronológica,
amparados nos contatos do primeiro autor
com o personagem-sujeito mais de 20
anos, bem como em documentos, relatos e
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entrevistas por meio da história oral em
diversos momentos de longas conversas e
reflexões.
Os caminhos, os aprendizados e as
opções de vida
O primeiro autor conheceu Lourival
Soares da Silva, líder de movimento social
que lutava pela posse da terra e inclusão
social, quando atuava como consultor do
INCRA, na década de 1990.
Posteriormente, como Superintendente
para Minas Gerais por três anos,
encontraram-se em diversas ocasiões em
que lutavam pela mesma causa ou apenas
debatiam entusiasticamente as ideias ou as
formas ortodoxas que o poder público
vinha tentando implementar a reforma
agrária.
Reencontrar Lourival em 2019, após
20 anos foi uma feliz coincidência para o
primeiro autor, o que o estimulou a refletir
sobre a história de um personagem que
dedicou sua vida inteira aos movimentos
sociais e às ações coletivas, em detrimento
de seu sucesso pessoal.
Recuperar aspectos, fatos, ações e
experiências da história da vida do
Lourival foi um agradável, emocionante e
enriquecedor processo de descobertas
sobre os caminhos por ele trilhados. As
oportunidades que surgiram e as opções
que foram realizadas por ele ao longo de
sua trajetória de vida e militância, desde
sua infância até os dias de hoje, pois ainda
permanece lutando para atingir os seus
objetivos de vida.
Os resgates foram um exercício de
memória, de associações de fatos e datas,
permeados por fortes emoções, seja pelas
conquistas seja pelas derrotas, mas que
demonstraram como suas escolhas foram
sendo construídas com base no trabalho
iniciado ainda na infância, como as
dificuldades para estudar e nas primeiras
noções da exploração das classes
subalternas. Essas experiências trouxeram
subsídios para entender suas escolhas de
vida em favor do coletivo, numa luta
contra-hegemônica pela autonomia de seus
companheiros e outros trabalhadores
rurais.
A cidade de Juazeiro, no Estado do
Ceará, é o berço natal do Lourival, que
nasceu no dia 18 de maio de 1949. Com
apenas seis anos de idade, como era muito
comum no período, a família migrou para
o Triângulo Mineiro, para trabalhar nas
fazendas como boia-fria. Nas décadas de
1950 e 1960, a expansão da fronteira
agrícola atingiu em cheio a região do
Triângulo, ao explorar as terras férteis bem
como ao dominar o cerrado. Antes da
modernização agrícola, as lavouras,
especialmente de arroz, milho e depois
soja, exigiam uso intensivo de mão de
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obra. Após a modernização, sobretudo com
o uso das máquinas, agravada pelas
tentativas dos empregadores de burlar a
legislação trabalhista, os trabalhadores
rurais foram expulsos e se tornaram os sem
terras das décadas seguintes. As precárias
condições de trabalho, a exploração da
mão de obra e as poucas perspectivas de
vida dificultaram ainda mais as raras
oportunidades que Lourival teve para
estudar. Por três vezes durante a infância,
começou a estudar em precárias classes
isoladas, organizadas pelos fazendeiros,
com professores leigos, ou seja, um
trabalhador com alguma formação era
promovido a professor. Naquelas ocasiões
teve que abandonar a escola para trabalhar
por uma questão de sobrevivência.
Nesse contexto, entende-se a
aprendizagem como algo que ultrapassa
um conjunto de contdos restritos a
uma sala de aula. É importante
disponibilizar à criança um processo
educativo que contemple as múltiplas
dimensões do ser humano. No caso do
Lourival, quando falamos em educação
para a vida, referimo-nos a uma jornada
de conhecimentos contínuos, na qual o
indivíduo aprende, experimenta,
empreende e se legitima ao compreender
a si mesmo, ao outro e à sociedade
injusta e desigual em que vivemos.
Como resultado deste aprendizado,
em uma sociedade repleta de
desigualdades e injustiças em
praticamente todas as instâncias, o
sujeito racional, que é idealista por
acreditar que um mundo melhor é
possível, passa a agir racionalmente com
relação a valores de fundo que partilha
com seus companheiros, e parte para
ão coletiva por meio dos movimentos
dos trabalhadores rurais que lutam por
um pedaço de terra para morar, viver e
produzir sua subsistência com dignidade.
As condições políticas, sociais e
econômicas do Brasil, historicamente,
levaram a concentrações fundiárias e de
renda, gerando, portanto, desigualdades
sociais a níveis inaceitáveis em uma
sociedade que se pretenda civilizada e
justa.
A escassez de escolas, especialmente
no meio rural, a precariedade do trabalho
docente em termos de capacitação e
condições de trabalho, e a necessidade de
trabalhar para viver impediram a
permanência do Lourival na escola. Houve
certo esforço para estudar, ele fez três
tentativas, mas, por motivos de migração
regional, carência financeira e outras
dificuldades como transporte, material
escolar, não permitiram a continuidade dos
estudos.
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Ainda assim, o acesso irregular a
uma educação escolar formal não lhe
impediu o aprendizado para a vida e,
sobretudo, a luta pela transformação de
uma sociedade injusta por meio de ações
coletivas orientadas por valores
compartilhados, como a superação da
injustiça e da desigualdade sociais que
impedem os trabalhadores rurais de morar,
produzir e viver digna e autonomamente.
Trajetória educacional e profissional
Como cidadão brasileiro, migrante
nordestino, Lourival não ficou imune aos
impactos causados pelo histórico de
políticas econômicas e sociais que
conduziram o país a desigualdades cada
vez mais profundas. Com a necessidade de
emprego para sobreviver e as mudanças de
uma fazenda para outra em busca de
trabalho, passou três vezes por uma sala de
alfabetização, as quais marcaram sua vida.
Lourival ainda se lembra carinhosamente
da “Cartilha da Infância” utilizada nas
escolas brasileiras na década de 1950.
Ainda que não pudesse ter
continuidade na escola, as condições
difíceis de sobrevivência lhe forneceram
um extenso aprendizado para a vida.
Lourival tem um vasto conhecimento
informal, uma profunda formação religiosa
cristã proporcionada pela Igreja Católica,
especialmente por meio do contato com
padres progressistas das cidades de
Ituiutaba e Uberlândia. Em função da
horizontalidade e do caráter mais vivencial
e cooperativo desse tipo de aprendizagem,
podemos dizer que Lourival formou as
bases de sua visão de mundo a partir de
noções compartilhadas de valores cristãos
de solidariedade e justiça.
Desde 1979, ainda em Ituiutaba,
Lourival participou das Comunidades
Eclesiais de Base-CEB, continuando
depois, em Uberlândia, na Comissão
Pastoral da Terra-CPT. Atualmente, é
presidente da Associação do Projeto de
Assentamento Rio das Pedras e membro
fundador do Movimento Terra e Liberdade
MTL. Depois que começou a participar
dos movimentos sociais na década de
1980, nunca mais abandonou a luta,
mantendo-se sempre ativo, propositivo em
todos os lugares e em várias ações
coletivas pelo acesso à terra, melhorias na
infraestrutura, nas condições de vida e na
produção nos assentamentos.
As principais perspectivas que
guiaram a formação do conhecimento
sobre a vida e atuação do Lourival foram
seus saberes políticos, de liderança e suas
noções e inconformidade com a
desigualdade e injustiça. Isso tudo
praticamente sem ter frequentado uma
escola regular e de qualidade.
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Pode-se dizer que Lourival é um
sábio naquilo que faz. É altamente
reflexivo, analítico em todos os momentos,
prudente na filtragem de suas falas, com
uma invejável capacidade de associação de
ideias e de síntese. depois de muito
ponderar é que ele manifesta suas ideias.
Os participantes de reuniões dizem que ele
fala apenas na segunda metade das
atividades, certamente, este é o tempo que
ele utiliza para refletir, associar
posicionamentos, sintetizar e propor
encaminhamentos. Por isso, alguns
costumam dizer, com certa dose de ciúmes,
que a maioria das propostas aprovadas são
do Lourival, o que confirma seu
conhecimento, sensatez, liderança e poder
de convencimento. Esse proceder revela o
caráter reflexivo e comunicativo das
interações com seus companheiros. Mesmo
com somente alguns meses intermitentes
em uma escola rural precária, cujo
professor era um trabalhador rural, as
experiências e aprendizagens coletivas de
vida tornaram Lourival um mestre na ação
coletiva e liderança de movimento social.
Outro aspecto da vida do Lourival
que mereceu destaque foi quando indagado
sobre o que lê, pois nos intrigou saber de
onde vinha todo seu conhecimento
político, social, de organização social e de
liderança de movimento social. Sua
resposta foi: “...nunca li um livro...
somente a Bíblia.” (entrevista em
14/10/19).
Foi a partir da leitura da Bíblia e suas
reflexões que construiu sua formação de
liderança e inconformismo com as
desigualdades e injustiça social praticadas
pelos homens poderosos que dominam a
política e subordinam os mais fracos. A
Bíblia o ajudou muito em suas atividades
de militância e organização social. Foi a
partir de sua leitura que percebeu a
importância da para a formação da
consciência política, e a força do coletivo
organizado para provocar mudanças em
uma sociedade dominada por uma elite
privilegiada que não pensa no sofrimento
dos pobres e despossuídos, nem em reduzir
as desigualdades. Os valores bíblicos de
honestidade, solidariedade, união,
resignação e disposição para o trabalho
coletivo, permanecem vivos e impregnados
nas suas atitudes, formando um horizonte
normativo partilhado que orienta suas
reflexões. Até hoje participa de leituras da
Bíblia, novenas e reflexões coletivas sobre
religião, fé e militância política. Não vê
incompatibilidade com as ações dos
movimentos sociais, mesmo aquelas que se
encontram nos limites da transgressão
legal, pois fazem parte das lutas por
justiça, igualdade e afirmação da dignidade
humana.
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Contribuíram para sua formação,
sempre por meio do ouvir e refletir, além
da Bíblia, a interação com dois padres de
Ituiutaba, um superintendente do INCRA -
em uma gentil, mas honrosa referência ao
primeiro autor -, além de alguns juízes
durante as audiências e sentenças.
Sobretudo, Lourival aproveitou as
experiências de vida como lições para
entender a sociedade. Para ele a vida
acima de tudo e o social abaixo apenas de
Cristoconstituem seu lema e bandeira de
luta por uma sociedade mais justa e
humana.
Chama a atenção as reduzidas
fontes formais de estudo e informação,
basicamente a Bíblia, além das inúmeras e
ricas experiências de vida e atuação nos
movimentos sociais, o que contribuíram
para essa formação compartilhada de
valores que orientaram suas ações e
conduta de vida.
Quanto às suas atividades
profissionais, estas se resumem a
trabalhador braçal na agricultura por
muitos anos, por sete meses em uma
fábrica de papel e mais sete meses em uma
subsidiária das Centrais Elétricas de Minas
Gerais- CEMIG. O restante de sua vida
tem sido dedicado à militância política
pelos movimentos sociais que lutam pela
posse da terra.
Os projetos de assentamentos Nova
Santo Inácio e Ranchinho e Rio das
Pedras
Lourival participou do movimento
social que ocupou as fazendas que deram
origem ao Projeto de Assentamento Nova
Santo Inácio e Ranchinho no Município de
Campo Florido, o primeiro a ser criado no
Triângulo Mineiro, não sem muita
resistência e luta contra os fazendeiros e
políticos da região. A ocupação se deu em
1993 e o assentamento foi criado em 1994,
beneficiando 115 famílias de trabalhadores
rurais. Lourival foi assentado, trabalhou
em seu lote por 11 anos, mas nunca se
afastou da militância política dos
movimentos sociais e participava da
fundação e organização do MTL em
Uberlândia. Para facilitar a atuação na
direção do movimento, trocou seu lote no
assentamento Nova Santo Inácio e
Ranchinho por outro no Rio das Pedras, no
Município de Uberlândia, onde ocupa, há
vários anos, o cargo de presidente da
associação.
Para entender a relação das ações que
foram estabelecidas pelo Lourival com
maior profundidade é essencial
contextualizar as fases vividas por ele que
tiveram contextos e momentos diferentes
na forma de agir, bem como nas decisões
que foram tomadas.
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Neste sentido, é necessário resgatar o
momento histórico das condições políticas
multifacetadas, com um modelo
econômico concentrador e excludente,
intenso êxodo rural e desemprego elevado,
especialmente para as pessoas
semianalfabetas e pouco qualificadas para
o trabalho moderno, dominado pela
tecnologia e sem espaço para mudanças
que permitissem a inclusão social.
Na fase de organização dos
movimentos sociais, do planejamento das
ocupações de fazendas improdutivas,
reivindicações e ocupações de órgãos
públicos, especialmente do INCRA, as
lideranças incorporaram definitivamente os
valores importantes da sua época para
atingir seus objetivos: terra para morar,
trabalhar e produzir o sustento das
famílias. Com isso, Lourival obteve a
legitimidade conferida às pessoas que
agem pelo coletivo e das instituições que
apoiavam os menos favorecidos, como as
Comunidades Eclesiais de Base e alguns
gestores públicos.
Participou diretamente de mais de
uma dezena de ocupações de terras, ajudou
a organizar e apoiou inúmeras outras. Ao
invés de arrependimento, os seus valores e
princípios falam mais alto, orgulha-se de
ter tirado centenas de pessoas das ruas que
agora trabalham autonomamente e têm
onde morar e comer dignamente. Mais
ainda, mesmo tendo estudado o mínimo
possível, hoje, nos assentamentos, todas as
crianças têm acesso à Escola Pública.
Apenas do assentamento Rio das Pedras o
qual ele coordena, saem um ônibus e uma
van todos os dias levando as crianças e
jovens filhos desses agricultores para a
escola.
Lourival conseguiu seu lote de 17
hectares, agricultável, explora horticultura,
faz uns queijos e doces para vender. Mora
em casa de alvenaria, com luz elétrica e
água encanada e usa uma caminhonete
para comercializar seus produtos, para
participar de reuniões da associação e para
fazer militância na região. Criou os três
filhos, um técnico em Farmácia, outro
eletricista e uma filha que fez Magistério.
Nenhum mora com os pais, porque têm
suas profissões. é aposentado pelo
Instituto Nacional de Seguridade Social
INSS, mas não para de trabalhar e muito
menos de militar pelos movimentos
sociais.
Uma hermenêutica das falas
Nesta seção, vamos analisar as falas
de nosso protagonista não apenas na
sentença escrita, mas também ao destacar
as normas pragmáticas que se fazem
presentes, por assim dizer, atrás delas,
como na pragmática formal de Habermas
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(2002), ainda que permanecendo no
contexto e no tema.
Não seria exagero dizer que algumas
lideranças de movimentos sociais podem
ser consideradas como ícones de alguns
grupos, ainda que polêmicas, pelo
comprometimento com a causa, seu senso
de dever para com o coletivo, de busca
ferrenha pela dignidade da pessoa humana,
de ordem e hierarquia entre eles e, acima
de tudo, pela luta incansável e cheia de
riscos, inclusive à própria vida.
Constata-se que Lourival é um
protagonista do Movimento Trabalho e
Liberdade por sua representação carregada
de significados edificados pelas suas ações
corajosas, pela procura incessante por
benfeitorias para o assentamento, pela
perseverança na militância, inclusive com
o quase abandono de seu lote para atuar em
prol do coletivo.
Passaremos agora a uma tentativa de
análise e interpretação, o mais fiel
possível, das várias conversas ao longo de
vinte anos e três longas entrevistas
realizadas na casa do nosso protagonista.
Indagado sobre o que D. Maria
Elisabeth, sua esposa, casados desde 1972,
representa para ele, respondeu de imediato
e filosoficamente: “meu começo, meu
meio e o meu fim”. (entrevista em
10/10/19).
Muitas conversas e respostas do
Lourival são de uma profundidade
impressionante, por isso recorremos à
hermenêutica pragmática como arte da
interpretação para analisar, não apenas a
fala em si, mas também o momento, o
contexto social e emocional do
entrevistado. Em outras palavras, o que ele
faz ao dizer. Não se trata de uma fala
poética, romântica ou religiosa, mas revela
uma racionalização da importância de sua
esposa em três dimensões de sua vida:
como alguém que lhe apoia a ser quem é,
num sentido mais privado, e num sentido
mais público, a buscar equilíbrio no
cotidiano e a dar sentido para suas ações. A
valorização da esposa deriva de sua
convivência pessoal, como por seu
exemplo de mãe responsável e bem
sucedida.
Ele reconhece, com convicção, que,
por ser um líder e militante que viajava e
tinha inúmeras reuniões, foi um marido e
pai ausente, mas sua esposa assumiu toda a
responsabilidade pela administração da
casa e cuidado com os filhos. Assim eles
começaram e desde o início ela cuidou de
praticamente todos os afazeres domésticos
e da família. Agora continuam juntos
apenas os dois, mas ela ainda permite que
ele continue militando e lhe garante o afeto
familiar.
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Dado que Lourival, mesmo sem ter
tido condições de estudar, não deixa uma
criança do assentamento que coordena sem
ir para a escola, lhe foi perguntado se ele
achava a educação importante para a vida.
Ele respondeu que a “Educação é igual
dinheiro, se usar bem é boa, mas se usar
mal é ruim”. (entrevista em 10/10/19).
Mais uma resposta sábia do pensador
semianalfabeto para a burocracia
educacional, e profunda para um
autodidata formado pela universidade da
vida. Para além da grafia da fala, devemos
percorrer a trajetória de vida e valorizar as
experiências práticas vivenciadas por
Lourival ao longo de sua militância
política. Ele não tem dúvidas quanto à
importância de uma educação
humanizadora, amorosa, participativa, de
qualidade, especialmente para os
excluídos. No entanto, em sua militância,
conviveu com tantos intelectuais,
acadêmicos, políticos, gestores públicos,
juízes, com os mais altos níveis
universitários, que utilizavam seus
conhecimentos técnicos e científicos para
proveito próprio, em benefício das elites
em detrimento dos pobres. Ele acha que a
educação em seu sentido filosófico poderia
ser mais bem utilizada para a melhoria da
vida, das pessoas e do meio ambiente. Isso
revela que, para Lourival, a educação
formal é semelhante à racionalidade
voltada para fins, ou seja, um instrumento
que, se utilizado como fim em si mesmo,
perde o sentido e, por isso, precisa de
meios e valores que sejam significativos
para a vida pessoal e social dos indivíduos
e para o bem do espaço onde vivem.
O meio ambiente é um bem, ou
melhor, um espaço de vida muito
valorizado por Lourival. Uma área
considerável de seu lote é preservada com
uma reserva de mata, de onde ele não
permite que se tire madeira. Para quem
pede, ele diz “os paus são de Deus,
ninguém pode cortar”. No fundo, o terreno
tem um brejo que antecede um córrego.
Toda essa área é mantida como área de
preservação permanente e fica intocada,
sem exploração econômica.
Ao considerar as dificuldades
enfrentadas na vida desde a migração do
nordeste, o impedimento de estudar, o
trabalho rural árduo, explorado ou mal
remunerado, e a luta contra o sistema
político injusto, lhe foi indagado se ele se
considerava uma pessoa realizada.
Respondeu de imediato: “Individualmente
sim, coletivamente não”. (entrevista em
10/10/19).
É digno de nota que essa resposta
instantânea e espontânea, apesar de uma
frase curta, traz em seu interior uma
profundidade de conteúdo que parece
resultar de algo longamente refletido.
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Essa capacidade de diferenciar entre sua
vida como pessoa privada e pessoa pública,
como indivíduo e parte de um coletivo,
revela uma visão crítica e consciente das
diferentes dimensões do humano e do viver
em sociedade. Por meio da metodologia da
história oral, na conversa face a face,
podemos enriquecer nossa análise com
detalhes do pensamento do Lourival e,
mais do que isso, ela nos enriquece
também como pesquisadores e pessoas, e
contribui para o avanço do conhecimento
sobre o assunto.
A resposta também revela valores
não apenas interiorizados pelo
protagonista, mas, sobretudo, a realização
na prática das metas perseguidas durante
toda a luta coletiva pelo acesso à terra.
Mesmo tendo conseguido o seu pedaço
de chão, construído sua casa, ter seu carro
para trabalho e uso pessoal, ter os filhos
criados e estabilizados profissionalmente, o
valor pela ascensão coletiva dos grupos,
pelos quais sempre lutou, não o satisfaz
plenamente. Ele acredita, como em um ato
de fé, que essa dimensão de sua vida se
realizará quando no porvir houver uma
sociedade mais justa e igualitária.
Mais adiante no diálogo, Lourival vai
mais longe em seu pensamento, que não é
mais só dele e sim daqueles com quem
convive, levando-nos a refletir
dolorosamente sobre as desigualdades e
injustiças em nosso país. “Acho que não
vou parar de militar nunca, enquanto pobre
carregar mala de rico, eu vou lutar.”
(entrevista em 10/10/19).
Outra demonstração cabal de seu
compromisso social, uma imagem de seu
desejo ferrenho de mudança social, por
ainda acreditar que um mundo melhor é
possível. Desde que começou a participar
das Comunidades Eclesiais de Base em
1979 nunca mais parou de lutar, ajudou a
fundar um movimento social e permanece
trabalhando como se fosse um presbitério
dado por Deus, como ele mesmo diz: “Eu
não frequento assiduamente a Missa, tenho
uma missão para ajudar pessoas
necessitadas”. (entrevista em 14/10/19).
Lourival conseguiu incorporar em
seu arcabouço teórico e prático os valores
sociais do bem comum, da cidadania e da
igualdade em seu sentido amplo, assim
como valores da Igreja Católica. Mas o que
chama a atenção é que esse conjunto de
crenças e saberes não é apenas operado no
nível das ideias, pois ele transforma os
valores sociais, os princípios morais e
éticos da Igreja em modo de vida e ação
cotidiana.
Ele próprio faz relembrar um líder
religioso muito comprometido com as
questões sociais, D. Helder Câmara,
citando-o como parte de sua missão
também: “Enquanto eu tiver força nas
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pernas e na língua vou falar e caminhar”.
(entrevista em 14/10/19).
Realmente, o nosso protagonista
assumiu um papel, não apenas visionário,
mas de um missionário. Eliminar a
desigualdade social, pelo menos em
relação aos trabalhadores rurais sem-terra,
tornou-se uma espécie de “dogma
reflexivo” em que acredita piamente e
aplica cotidianamente em suas lutas.
Ainda nesta linha de pensamento,
religião militância ação coletiva,
fundamentada em profundas convicções
religiosas e políticas, cabe ressaltar que,
diferentemente, de muitos líderes de
movimentos, Lourival nunca foi favorável
à violência, nem mesmo nos momentos
mais tensos dos embates entre polícia e
sem-terra. Em uma ocupação em 1991,
enquanto seus liderados eram cercados por
quase 200 policiais que jogavam bombas;
trabalhadores eram presos, amarrados, ele
dialogava e tentava evitar a violência de
ambas as partes.
Como ele mesmo diz: “Militei a vida
inteira em troca de uma ideia. O militante
não tem lucro, não traz nada para casa”.
(entrevista em 14/10/19).
Nessa frase, ele resume seu próprio
conceito de missão, trabalhar pelos seus
semelhantes sem esperar lucro, sem um
resultado específico que não dependa da
construção coletiva de relações de
igualdade e justiça. Sua recompensa é o
dever cumprido, a não-omissão, a
harmonia com os amigos, ver pessoas
felizes nos assentamentos. Sua
metodologia é o diálogo e, acima de tudo,
o aprendizado nas árduas e longas aulas da
universidade da vida.
Ao resgatar a história do líder
Lourival foi possível perceber a relação
distinta de sua atuação no movimento
social com a vida e as formas de ações dele
na vida familiar e profissional. Vivenciou
uma história familiar árdua, desde menino
já trabalhava na roça pela sobrevivência e a
precária alfabetização em três curtos
períodos em uma classe formada pelo
patrão e um professor que também era
trabalhador rural. Esses poucos meses de
aula, com interrupções e retornos,
juntamente com o trabalho familiar,
contribuíram para reforçar seu caráter, a
importância de valores morais, sobretudo a
liberdade e a igualdade. A Igreja Católica
também foi fundamental para sua
formação, não apenas religiosa, mas,
sobretudo, na luta pela igualdade e justiça
social por meio das Comunidades Eclesiais
de Base (CEB).
As vivências pessoais e profissionais
passadas como migrante nordestino, a
dificuldade para estudar, como trabalhador
rural praticamente sem direitos sociais, e as
experiências de diversas formas de
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exploração foram decisivas para as
experiências na CEBs, pautando sua
formação e atuação nos movimentos dos
trabalhadores rurais sem terra desde a
década de 1980. Sua militância incansável,
a ponderação, a reflexão e a inserção de
corpo e alma na luta por direitos o levou a
participar da fundação e estruturação do
MTL - Movimento Terra, Trabalho e
Liberdade. Esses valores contribuíram para
a consolidação de sua imagem pública
carregada de atributos significativos que
consolidaram um mito de personalidade
forte, atuante e controversa, responsável
pela manutenção e preservação da luta pela
terra no Triângulo Mineiro.
Considerações finais
A pesquisa buscou compreender e
analisar as ações sociais racionais em
relação a valores desempenhadas por
Lourival Soares ao longo de sua vida, as
quais lhe renderam um aprendizado não
escolar, embora profundo sobre as relações
humanas, as desigualdades e a visão de que
somente a organização social pacífica
poderá superar o domínio do capital sobre
as classes trabalhadoras.
Neste sentido, podemos dizer que, ao
modo descrito por Weber em seu conceito
de ação racional com relação a valores,
Lourival construiu suas ações imbuídas por
sentidos configurados em sua vida anterior,
mas também assimilados e refletidos pelo
imaginário coletivo nos lugares onde
morou e/ou atuou. E, a partir da teoria da
ação comunicativa de Habermas (1984),
podemos também dizer que antes de se
tornarem motivos de suas ações, os valores
que orientam a conduta do Lourival foram
formados em processos de construção
compartilhada e vivências com seus
mestres e companheiros de luta.
Essa combinação da ação racional
orientada por valores com a ação
comunicativa fica evidente quando
entendemos que Lourival agia em
conformidade com suas próprias
convicções, embora elas tenham sido
formadas a partir de seus aprendizados de
vida e como se entendia no mundo, diante
das circunstâncias locais, regionais e até
mesmo nacionais em relação a um
movimento social de trabalhadores rurais.
Esses elementos construíram, ao longo do
tempo, uma exigência ditada pelo senso de
dever e responsabilidade do líder, pelos
princípios organizacionais do movimento
social referenciados em suas crenças,
valores morais, sociais e políticos.
Concluímos, com isso, que Lourival
agia conforme a ação social/racional com
relação a valores construídos em ações
comunicativas sobre convicções religiosas
e políticas, e que motivaram seu senso de
obrigação, dever e conduta ética. Suas
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convicções de vida, conforme pôde ser
visto por meio das entrevistas, foram
alicerçadas no seu comprometimento com
a resolução de situações críticas de
desigualdades e nos valores de organização
de ações coletivas, militância política,
elementos que se refletiam nas suas ações
em defesa dos trabalhadores rurais sem
terra. O significado e importância desses
valores em sua vida foram tão intensos
que, pode-se dizer, suas ações foram
realizadas, como apontou Weber (1989, p.
43), "pela importância de uma causa, não
importando qual o seu fim".
Neste sentido, pode-se afirmar que
para a pessoa Lourival a responsabilidade
sobre o movimento social e luta coletiva
foram inteiramente absorvidos em sua
vida, ocupando a centralidade de todas as
suas ações sociais, racionais,
especialmente aquelas relacionadas a
valores. Esses valores se transformaram
em uma obstinação, uma missão para ele
quase divina, ainda que não atingisse sua
concretude no presente. Lourival dedicou
sua vida por completo a essa causa,
abrindo mão, inclusive dos cuidados com a
família e da produção em seu lote que
poderia lhe garantir uma vida mais
confortável e tranquila. Mesmo após se
aposentar, ele manteve suas vinculações
com o movimento.
Lourival ainda mora no
assentamento, explora seu lote e faz a
comercialização de seus produtos, mas
permanece exercendo a função de
presidente da associação e de membro
ativo da coordenação do Movimento
Trabalho e Liberdade, o que comprova seu
eterno compromisso com a causa dos
trabalhadores rurais.
Não resta dúvida de que Lourival é
um personagem marcante em sua época e
área de atuação, um líder nato, pois acima
de tudo ele se negou ao comodismo, ao
sucesso pessoal e se entregou de corpo e
alma ao ativismo político em defesa de
causas sociais. Um inconformado com a
injustiça, a desigualdade social. Um
militante pacífico e incansável.
Como vimos, Lourival assumiu em
sua trajetória uma ética enérgica, difícil e
arriscada, ao enfrentar questões
emblemáticas sobre inclusão social, ação
coletiva e organização de movimentos
sociais. Incorporou e representou uma
causa social de modo coletivo e refletido,
sem que o sucesso individual fosse seu
fim. É por essa razão que se torna
importante interpretar Lourival a partir de
Max Weber e Jürgen Habermas, o que
colaborou para uma complementaridade
entre suas teorias, mais que uma
contraposição. Assim, foi possível resgatar
e compreender as ações representativas de
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uma figura marcante e seu grupo social,
buscando entender a formação e vivência
dos “sentidos” e “significados” de sua
vida, em diferentes dimensões e momentos
históricos.
Neste sentido podemos dizer que os
objetivos foram plenamente alcançados,
pois a ação social em relação a valores,
bem como a ação comunicativa
contribuíram para a compreensão da
história de vida e ação do nosso
personagem.
Uma contribuição que podemos
deixar é que a teoria da ação social de
Weber e a da ação comunicativa de
Habermas se mostraram adequadas para
analisar e compreender as ações de líderes
sociais, que transformaram a vida pessoal
do personagem assim como do grupo em
que participava, de maneira consciente,
democrática e militante, trazendo acima de
tudo uma invejável sabedoria em diversos
campos do conhecimento, mesmo com o
mínimo de educação escolar.
Ao final, podemos dizer que
conhecer e divulgar a vida e convicções do
Lourival transcende os próprios limites
descritivos da pesquisa acadêmica, pois,
nas palavras de Freire (2011), é a partir da
voz dos oprimidos que pode surgir a
libertação, dado que estes não têm um
compromisso com o sistema vigente que os
oprime. Assim, a clareza política que a voz
do Lourival adiciona ao processo histórico-
dialético de construção das realidades
sociais poderá ajudar significativamente
para a formação da utopia de uma nova
sociedade.
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Informações do Artigo / Article Information
Recebido em : 29/06/2020
Aprovado em: 13/03/2020
Publicado em: 30/05/2021
Received on June 29th, 2020
Accepted on March 13th, 2020
Published on May, 30th, 2021
Contribuições no Artigo: Os autores foram os
responsáveis por todas as etapas e resultados da
pesquisa, a saber: elaboração, análise e interpretação dos
dados; escrita e revisão do conteúdo do manuscrito
e; aprovação da versão final publicada.
Author Contributions: The author were responsible for
the designing, delineating, analyzing and interpreting the
data, production of the manuscript, critical revision of the
content and approval of the final version published.
Conflitos de Interesse: Os autores declararam não haver
nenhum conflito de interesse referente a este artigo.
Conflict of Interest: None reported.
Avaliação do artigo
Artigo avaliado por pares.
Article Peer Review
Double review.
Agência de Fomento
Não tem.
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No funding.
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Como citar este artigo / How to cite this article
APA
Alves Filho, E., Blotta, V. S. L., & Jesus, O. F. (2021).
Universidade da vida, ação racional e comunicativa de um
líder de movimento social. Rev. Bras. Educ. Camp., 6,
e9796. http://dx.doi.org/10.20873/uft.rbec.e9796
ABNT
ALVES FILHO, E.; BLOTTA, V. S. L.; JESUS, O. F.
Universidade da vida, ação racional e comunicativa de um
líder de movimento social. Rev. Bras. Educ. Camp.,
Tocantinópolis, v. 6, e9796, 2021.
http://dx.doi.org/10.20873/uft.rbec.e9796