Revista Brasileira de Educação do Campo
The Brazilian Scientific Journal of Rural Education
EDITORIAL
DOI: http://dx.doi.org/10.20873/uft.2525-4863.2018v3n1p01
Rev. Bras. Educ. Camp.
Tocantinópolis
v. 3
n. 1
jan./abr.
2018
ISSN: 2525-4863
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Educação do Campo e pluralidade de saberes
Cícero da Silva
1
, Gustavo Cunha de Araújo
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Universidade Federal do Tocantins - UFT, Departamento de Educação do Campo. Avenida Nossa Senhora de
Fátima, 1588, Centro. Tocantinópolis, Brasil. rbec@uft.edu.br.
2
Universidade Federal do Tocantins - UFT.
A Revista Brasileira de Educação do Campo RBEC, ISSN 2525-4863, periódico
do Departamento de Educação do Campo, da Universidade Federal do Tocantins, campus de
Tocantinópolis, lança o seu primeiro número do volume 3, referente ao primeiro semestre de
2018. Este número traz 15 artigos, aprovados dentre os manuscritos recebidos ao longo do
ano de 2017 e 2018.
Os artigos aqui socializados reforça o crescimento de pesquisas a respeito da
Pedagogia da Alternância, escolas do campo, povos indígenas, políticas públicas, movimentos
sociais, práticas pedagógicas e formação de professores, de diferentes estados brasileiros e de
outros países também, o que contribui para que a produção de conhecimento nesse âmbito se
fortaleça e se amplie na educação brasileira.
Abrimos este número com o artigo Martin Rodriguez Vivanco e a Sociologia da
Educação em Cuba”, da autora Lídice Mesa mez (Universidade de Artemisa, Cuba), cujo
objetivo da pesquisa é analisar a contribuição de Martin Rodriguez Vivanco para o
desenvolvimento da Sociologia da Educação em Cuba durante a República neocolonial e o
significado de seus conceitos para a atualidade. Os resultados da pesquisa revelaram a visão
de Vivanco sobre a teoria da Sociologia da Educação, refletida no tratamento que fez seu
assunto, sua relação com outras ciências, suas principais categorias, entre outros, que são o
ponto de partida para o estudo desta ciência no país e servir para esclarecer e apoiar as raízes
da pedagogia cubana.
O segundo artigo, intitulado Memória educacional no município de Enéas
Marques-PR: décadas de (1960-1990) das escolas rurais à nuclearização”, de autoria de
Maricélia Aparecida Nurmberg e André Paulo Castanha (UNIOESTE), investiga a história da
Educação do Município de Enéas Marques, situado no Sudoeste do Paraná, entre as décadas
de 1960 e 1990, período em que o número de escolas rurais era muito expressivo. Os achados
da pesquisa mostraram que estas escolas eram em sua maioria multisseriadas, funcionando em
dois períodos, sendo atendidas por um ou dois professores. Todavia, a partir da década de
1990, a gestão municipal iniciou o processo de fechamento/nuclearização destas escolas e os
estudantes passaram a utilizar do transporte escolar, obrigando-os a estudar em escolas
urbanas, fazendo com que a identidade rural fosse se perdendo.
Em O tempo aldeia: construindo uma nova prática pedagógica”, de Ribamar
Ribeiro Junior, Laécio Rocha de Sena e William Bruno Silva Araújo (UFMG, UNIFESSPA e
IFPA), o propósito da investigação é estabelecer diálogo com o pensamento descolonial na
educação a partir da experiência do Curso Técnico em Agroecologia do Campus Rural de
Marabá, do Instituto Federal do Pará (IFPA). Nesse curso, o percurso formativo integra dois
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tempos de estudo: o Tempo Escola e o Tempo Aldeia, caracterizado como “alternância
pedagógica”. A pesquisa mostrou que essa lógica da alternância parte do estudo da realidade
“concreta”, possibilitando aos educandos articulação dos conhecimentos tradicionais e os
técnico-científicos relacionados às dimensões políticas, históricas, naturais. Nessa
perspectiva, parte-se da proposta de educação descolonial e o tempo aldeia se mostrou central
na estratégia de se pensar e repensar formas de educação “outras”, aquelas da modernidade.
No artigo Educação do Campo e material didático: uma análise de livros
didáticos de História”, de autoria de Cícero da Silva e Ilário Dias Cardoso Filho (UFT), o
objetivo da pesquisa é analisar dois Livros Didáticos de História (LDH) utilizados no Ensino
Fundamental (6º ano) em escolas do campo situadas no município de Tocantinópolis-TO. As
análises desse material didático focalizam: (1) conteúdos; (2) atividades; (3) interação
professor-aluno; e as (4) imagens. Tendo em vista a realidade das escolas do campo e do
contexto social, político e econômico em que vivem os camponeses, o estudo revelou que
apenas um dos LDH analisados atende aos princípios defendidos pela Educação do Campo.
Educação Contextualizada para a convivência com o Semiárido Brasileiro
como uma prática emancipadora”, artigo de autoria de Luana Patrícia Costa Silva,
Albertina Maria Ribeiro Brito e Alexandre Eduardo de Araújo (UFPB), tem como principal
objetivo elucidar práticas pedagógicas que esboçam uma relação de Educação para
Convivência com o Semiárido Brasileiro, a partir da experiência da Escola Plínio Lemos
Escola da Terra, localizada no assentamento Zé Marcolino, Prata-PB. Estas práticas são
visualizadas na prática das educadoras que possibilitam um contexto educativo pautado no
ensinar e aprender coletivos. Desta forma, a pesquisa identificou ações emancipadoras que
descortinam os estereótipos destinados às regiões Semiáridas e aos seus sujeitos, na medida
em que passam a ressignificar suas identidades e construir uma nova concepção educativa,
pautada na emancipação e na autonomia.
Em seguida, o artigo O Curso Técnico em Cooperativismo realizado pelo
PRONERA: uma análise baseada na Abordagem das Capacitações”, de Conceição
Coutinho Melo e Paulo Dabdab Waquil (INCRA e UFRGS), traz resultados de uma pesquisa
sobre o Curso Técnico em Cooperativismo (TAC), que surge na década de 90 como demanda
do MST em formar técnicos para atuar nas cooperativas dos assentamentos rurais de Reforma
Agrária. Atualmente, o curso é desenvolvido por meio do Programa Nacional de Educação na
Reforma Agrária PRONERA, sob o paradigma da Educação do Campo. Considerando que
se pretendeu investigar se esse curso contribui para a expansão das capacitações de seus
egressos e para o desenvolvimento dos assentamentos rurais, a pesquisa revelou que todos os
entrevistados continuaram seus estudos e atuaram, depois de formados, em entidades ligadas
aos assentamentos. O processo formativo do TAC tem contribuído na expansão da liberdade
dos egressos.
Em As relações entre escola e comunidade na concepção de professores que
atuam na Educação do Campo”, artigo das autoras Jéssica Pauletti e Sandra Maria
Wirzbicki (UFFS), o objetivo é compreender as percepções das relações entre escola e
comunidade a partir de práticas e conhecimento da Educação do Campo entre professores que
atuam em escolas do Ensino Médio da região Sudoeste do Paraná. Os resultados do estudo
possibilitaram organizar categorias que indicam a existência de dificuldades na elaboração do
planejamento por parte dos professores e uma participação efetiva da comunidade, assim
como entendimentos limitados acerca da localidade e organização do currículo. Apesar de
dificuldades, existem tentativas, como a realização de feiras e visitas às propriedades rurais,
além da compreensão do quão é necessário desenvolver temáticas do cotidiano dos alunos nas
aulas, possibilitando abordagens significativas dos conteúdos. Ainda, a partir das análises,
emerge uma problemática maior que envolve os professores, a escola e a comunidade: trata-se
da Educação do Campo com traços fortes da Educação Rural.
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No artigo intulado “O Ensino da Física na Educação do Campo: descolonizadora,
instrumentalizadora e participativa, de autoria de Roberto Gonçalves Barbosa (UFPR), é
discutido o caráter epistemológico crítico da Física sob o viés do colonialismo a partir da qual
se apresenta as possíveis contribuições do ensino desta disciplina no contexto da Educação do
Campo, segundo o autor. Esta pesquisa possibilitou compreender uma abordagem
metodológica desenvolvida com duas turmas de licenciandos do curso de Educação do
Campo Ciências da Natureza da Universidade Federal do Paraná, Setor Litoral.
Na pesquisa seguinte, de autoria de Mônica de Almeida Santos, Alcione de Almeida
Santos, Maria Célia Santana Orrico e Mariana Martins de Meireles (UFRB), intitulado
Retratos contemporâneos da Educação do Campo: movimentos investigativos no Vale
do Jiquiriçá-BA”, as autoras relatam um estudo desenvolvido no povoado do Serrote, área
rural do município de Elísio Medrado-BA, no âmbito dos estudos efetivados pelo
Observatório em Educação do Vale do Jiquiriçá (OBSERVALE/UFRB), que tem como
finalidade ampliar estudos e promover debates sobre a Educação do Campo no Território do
Vale do Jiquiriçá. Dentre outros resultados encontrados, as autoras concluíram que a pesquisa
mostrou a presença de um modelo urbanocêntrico de educação que se distancia dos princípios
e concepções que pautam o movimento por uma Educação do Campo no Brasil, revelando a
predominância de uma educação orientada por um currículo homogêneo e descolado dos
contextos dos estudantes da Educação do Campo.
No artigo As multisséries no Campo de Arraias-TO: memórias”, de Jocyléia
Santana dos Santos e Samara Caldas Franco (UFT), as autoras buscam compreender, a partir
da metodologia da história oral, as dificuldades encontradas pelos educadores e educandos
que vivenciaram a realidade das classes multisseriadas em escolas do campo do município de
Arraias, Estado do Tocantins. A pesquisa constatou que a falta de formação específica para o
docente atuar na multisseriação, a ausência de um currículo voltado para a realidade do campo
e a falta de infraestrutura física, foram os principais aspectos evidenciados.
Em seguida, a partir de uma pesquisa bibliográfica e documental, no artigo intitulado
A presença da tecnologia na Educação do Campo: mapeamento da produção científica
nacional dos últimos cinco anos”, de autoria de Vagner Viera de Souza, Elaine Corrêa
Pereira e Celiane Costa Machado
(FURG), o objetivo do estudo foi realizar um mapeamento
das produções científicas brasileiras, dentro da biblioteca digital do SciELO, as quais
abordem as temáticas Tecnologia e Educação do Campo. Os autores afirmam que a pesquisa
possibilitou compreender quais campos as pesquisas estão mais avançadas em relação às
publicações que versam sobre a Tecnologia e Educação do Campo, o que pode vir a atrair
novas pesquisas e publicações nestas áreas menos exploradas.
Na sequência, tem-se o artigo O Sistema de Organização Modular de Ensino
(SOME) na ótica de egressos no município de Breves-Pará”, de João Marcelino Pantoja
Rodrigues
e Gilmar Pereira da Silva (UFPA), que teve o fito de analisar, a partir das
percepções de egressos do Ensino Médio, as contribuições e limitações do Sistema de
Organização Modular de Ensino (SOME) na formação educacional de jovens do campo no
município de Breves, localizado na Ilha do Marajó/Pará. Os resultados da pesquisa
demonstraram a afirmação da importância do SOME como única alternativa de acesso ao
Ensino Médio para a maioria dos jovens do campo paraense.
O artigo A Pedagogia da Alternância no contexto da Educação do Campo: a
experiência do Instituto Educar, de Luana Bonavigo
e Flávia Eloisa Caimi
(Instituto
Educar e UPF), teve o objetivo de investigar as práticas educativas da alternância
desenvolvidas no Instituto Educar, localizado no município de Pontão, Estado do Rio Grande
do Sul. Entre outros resultados, as pesquisadoras constataram que esse Instituto assume uma
organização metodológica baseada na Pedagogia da Alternância que envolve o Tempo Escola
e o Tempo Comunidade, a qual prioriza a educação dos sujeitos inseridos em uma
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coletividade e confere protagonismo aos educandos que ali desenvolvem seus processos
formativos.
O artigo Apontamentos sobre a Educação do Campo em Colorado do
Oeste/Rondônia: notas de um camponês letrado, de autoria de William Kennedy do
Amaral Souza, Raiane Agustinho Lopes, Vanessa Campos de Moraes e Marcos Antônio
Oliveira Rodrigues (IFRO, UFSC e UFMT),
é o penúltimo trabalho. Realizada no Estado de
Rondônia, a pesquisa teve como principal objetivo descrever algumas inquietações sobre a
dicotomia existente entre Educação no Campo e Educação do Campo, a partir do Movimento
dos Pequenos Agricultores (MPA). Os dados obtidos durante a pesquisa possibilitaram
afirmar que as pessoas do MPA acreditam em um sistema educacional melhor, e essa melhora
passa pelo diálogo entre Estado e Movimentos Sociais. No caso do MPA, esse diálogo tem
como ideia central a valorização da cultura camponesa dentro do ambiente escolar e a garantia
da manutenção das escolas do campo, podendo assim, ajudar a diminuir o êxodo rural e,
consequentemente, melhorar a qualidade de vida no campo.
Por fim, O processo de ensino nas escolas multisseriadas do campo e o
Programa Escola Ativa”, artigo de Marco Túlio Santos Ledo (SEMEC-Almenara), fecha
este número da RBEC. Nesse estudo, o objetivo é compreender o processo de ensino-
aprendizagem nas escolas multisseriadas do campo, a partir da análise do Programa Escola
Ativa. Para tanto, utilizou-se como procedimento de pesquisa a revisão bibliográfica. A
pesquisa mostrou que no Programa Escola Ativa as diversas formas de sistematização do
trabalho docente e da atuação discente são instrumentalizadas através de práticas definidas
no Projeto Base. Embora esse programa inclua ações importantes para a integração da escola
e da família e do aluno na comunidade, muitos fatores não se aplicaram devido a elementos
da estrutura organizacional dos sistemas de ensino, como, a não vivência do professor no
campo, a falta de formação nos campos universitários que versem sobre o tema, além das
dificuldades inerentes à prática docente em turmas multisseriadas.
A Revista Brasileira de Educação do Campo agradece aos(as) autores(as) pela
submissão de trabalhos ao periódico e aos(as) avaliadores(as) que contribuíram emitindo
pareceres e revisões dos manuscritos apresentados neste número e também ao longo de 2017 e
2018.
Desejamos a todos e a todas boas leituras!
Como citar este editorial / How to cite this editorial
APA:
Silva, C., & Araújo, G. C (2018). Educação do Campo e pluralidade de saberes. Rev. Bras. Educ. Camp., 3(1),
01-04.
ABNT:
SILVA, C.; ARAÚJO, G. C. Educação do Campo e pluralidade de saberes. Rev. Bras. Educ. Camp.,
Tocantinópolis, v. 3, n. 1, p. 01-04, 2018.
ORCID
Cícero da Silva
https://orcid.org/0000-0001-6071-6711
Gustavo Cunha de Araújo
https://orcid.org/0000-0002-1996-5959